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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Entrevistas (V)


Sábado, 2 de Janeiro de 2010

Entrevista de Luís Filipe Vieira ao jornal A Bola



Que agenda foi estabelecida para o Benfica a pensar nos desafios propostos pelo ano de 2010 que está a começar?

— A agenda normal de um Clube moderno em que o futebol ocupa lugar de destaque mas em que as responsabilidades vão muito para além do futebol. Conseguimos recuperar em apenas nove anos todo o atraso a nível de infra-estruturas e, ao mesmo tempo, credibilizámos o Clube, portanto, agora temos que fazer a gestão corrente, acompanhar a realidade nacional e internacional, provocar as rupturas que se revelaram necessárias aos interesses do Benfica. Costumo dizer que o Benfica voltou a ter futuro, em contraste com aquilo que encontrámos quando aqui cheguei. Nesta altura, queremos juntar ao património os resultados desportivos, quer seja no futebol, nas modalidades ou na formação. É nisto que estou concentrado e empenhado.

— Vamos assistir a alterações de fundo em matérias tão relevantes como o naming do estádio, renegociações com a Sagres ou a Adidas, a entrada da Benfica TV na plataforma ZON ou a venda dos direitos televisivos?

— Tudo tem o seu tempo e garantidamente, como pode calcular, são matérias que obrigam a reserva e seguramente a muita negociação. O que posso garantir, como de resto tenho feito até aqui, é que vamos assumir até ao fim os compromissos que assinámos, mas é evidente que em cada uma das matérias que indicou na pergunta iremos bater-nos por defender ao máximo os interesses do Benfica. A verdade é que conseguindo negociar ou renegociar todos os contratos que referiu, vamos colocar o Benfica num patamar completamente diferente!

— Já foi dito em diversas ocasiões que o Benfica está a receber muito menos em direitos televisivos do que aquilo que virá a auferir num futuro próximo, concorda?

— Todos sabem que os nossos jogos lideram largamente as audiências, mas também é verdade que temos um contrato assinado que iremos respeitar. No entanto, existe a expectativa sustentada de vir a melhorar substancialmente os valores do presente contrato! Neste momento o que importa dizer e reter é que temos um contrato que vamos respeitar.

— Mas, e deixando os direitos televisivos de fora, acredita que ainda é possível optimizar o actual nível de receitas?

-- Sem dúvida, já falou por exemplo de algo que ainda falta explorar, o naming do estádio. Depois, estou convencido que podemos melhorar, com uma boa margem, o valor de alguns patrocínios. Finalmente, deixando de fora os direitos televisivos, ainda temos os nossos jogadores. Todos reconhecem que eles valem muitíssimo mais hoje do que valiam há seis meses atrás. Portanto, por tudo isto sinto-me bastante confortável com a situação actual.

MERCADO DE INVERNO E FUNDO DE JOGADORES

— O Benfica foi ao mercado de Inverno apesar de ter um bom plantel. Os adversários interrogam-se de onde vem o dinheiro para estas operações. Há segredo?

— Não há segredo, há gestão e um compromisso que resulta da última campanha eleitoral e que tenciono cumprir. Podíamos ter resultados financeiros completamente diferentes, mas teríamos vendido jogadores e comprometido o nosso desempenho desportivo. Os parceiros financeiros, em função do nosso histórico, acreditam em nós e tem sido parceiros fundamentais no desenvolvimento de uma estratégia pensada. Podíamos ter vendido alguns jogadores quando o campeonato acabou e nesse caso as nossas contas teriam sido completamente diferentes, mas teríamos vendido mal. Hoje, todos eles estão muito mais valorizados, alguns são mesmo dos mais acompanhados da Europa.

— A criação do Fundo de Jogadores foi uma espécie de ovo de Colombo que outros clubes irão inevitavelmente seguir?

— Nos últimos anos inovámos sempre no negócio do futebol e não só; depois os outros vêm atrás. O Fundo é apenas mais um caso. O que é que o Fundo nos permite? Ceder parte do passe de alguns jogadores, mantendo esses mesmos jogadores no Clube, ou seja realizamos o encaixe necessário sem ter de realizar a venda imediata. Mas além da inovação desta solução, queríamos que ela fosse transparente e por isso fizemos questão que o Fundo estivesse sediado em Portugal e debaixo da supervisão da CMVM, e não como outros fundos anteriores que foram sediados em paraísos fiscais.

— Qual foi a razão do Benfica ter investido no seu próprio Fundo?

— É o melhor sinal da confiança que podemos transmitir. Se quiser, é uma lógica de compromisso em relação a todos aqueles que decidiram investir nele. Também investem porque vêm que o Benfica acredita no Fundo que criou.

— Que sentido tiveram as alterações verificadas na estrutura da SAD?

— Não houve alterações, apenas alguns ajustamentos que tiveram a ver com a necessidade da Dr. Teresa Claudino se dedicar a novas áreas em que estamos a investir como sejam a Clínica e alguns projectos de responsabilidade social, daí a entrada do Dr. Rui Gomes da Silva para a Administração da SAD.

— Que política desportiva será seguida no final da época? Muitas vendas? Muitas compras? Ou, ao invés, aposta na continuidade?

— A prestação desportiva da equipa, a consequente valorização da generalidade dos jogadores e as inúmeras abordagens que têm sido feitas levam-me a pensar que será muito difícil manter o actual plantel tal como ele está. Porque assim penso e não sou ingénuo, estamos já a trabalhar para preparar o médio prazo e alguns dos jovens jogadores que estamos a assegurar nesta fase são, exactamente, para começar a preparar o futuro.

JORGE JESUS E O TÍTULO

— É previsível que o Benfica renove o contrato com Jorge Jesus ao longo de 2010?

— É previsível que Jorge Jesus seja o treinador do Benfica durante muitos anos e não o digo pelo lugar que hoje ocupamos no campeonato, mas sim pelo trabalho que todos os que lidam com ele dentro do Benfica lhe reconhecem. Portanto, Jesus tem todas as condições para fazer um percurso de longa duração à frente do Benfica.

— Acredita num Benfica campeão em 2009/10?

— Estou optimista em relação a isso, mas não é uma garantia, até porque como disse recentemente na inauguração de uma Casa do Benfica, ninguém pode garantir vitórias ou campeonatos, a não ser que se movimente em zonas escuras. Acho que fizemos tudo para construir uma equipa ganhadora, mas há caprichos da bola em campo que ninguém domina. Não posso garantir que vamos ser campeões, mas apenas que vamos fazer tudo para o conseguir.

— Como foi feito o caminho, desde a contratação de Jesus até este momento, numa época em que os adeptos têm aderido como há muito não se via no Benfica?

— Não há segredo. Contratámos um bom treinador - aquele que era desde há muito a minha escolha -, formámos um bom plantel e assegurámos uma boa estrutura profissional. E aqui destaco, sem esquecer o trabalho incansável de todos, a dedicação e paixão com que o Jorge Jesus abraçou este projecto. É verdadeiramente admirável o seu rigor, profissionalismo e entrega. Mas as pessoas têm de estar preparadas para uma ou outra situação menos feliz que a equipa possa viver. E aí todos vão ter de nos ajudar como têm constantemente ajudado a equipa este ano.

— Esta equipa já atingiu o seu máximo?

— Não é isso que o Jorge Jesus me transmite. Segundo ele, o nosso plantel ainda tem uma margem de progressão muito grande. Também é verdade que alguns ajustamentos que fizemos não têm a ver apenas com o curto prazo, mas antes com uma lógica de começar a preparar já a próxima época. Todos os jogadores que entraram agora, são jovens e com enorme talento mas que vão ter que passar por um período de adaptação e, como tal, vão começar a entrar na equipa, crescendo dentro do Benfica, para, quando for necessário, estarem prontos.

— Mas há cada vez menos portugueses na equipa...

— O tempo deles acabará por chegar. Temos jovens na nossa formação que no futuro acabarão por ter o seu lugar na equipa principal, mas primeiro é preciso prepará-los, é preciso construir uma equipa vencedora. Os primeiros a criticar o facto de termos poucos portugueses, são também os mais críticos quando os «jovens portugueses» falham, são os mais críticos quando alguma coisa falha. Por isso temos de assumir uma dinâmica vencedora e depois começar a integrar os jovens da nossa formação. Ninguém mais do que eu deseja ter muitos portugueses na nossa equipa, mas temos de dar um passo de cada vez.

— A Liga Europa (embora nas contas oficiosas do Benfica esteja «apenas» uma presença nos quartos-de-final...) é um sonho?

— Estou certo de que iremos o mais longe que nos for possível. A vitória não está entre os objectivos delineados no início da época. Nesse capítulo, o nosso principal objectivo é o campeonato, mas repito, à medida que formos ultrapassando eliminatórias, não iremos desperdiçar a oportunidade de chegar o mais longe que for possível!

— O Benfica, mesmo sem o recurso a verbas da Liga dos Campeões, apetrechou-se bem e mostra capacidade para mais. Se chegar à Champions, qual é o limite para o Benfica?

— Temos vindo a fazer um trabalho sério e que foi reconhecido pelos nossos sócios. Sabemos que a presença numa Liga dos Campeões pode valer 15 milhões de euros. Sei também que em 2006/2007 estivemos na Liga dos Campeões e tivemos 20 milhões de lucro. Portanto, é evidente que estar lá representa uma parcela financeira importante. Mesmo assim, afastados há dois anos dessa competição, conseguimos fazer o que poucos acreditariam ser possível. O que mais me estranha é que outros clubes que não passaram pelas dificuldades que nós passámos, que estiveram repetidamente na Liga dos Campeões e que vendem regularmente jogadores só consigam apresentar lucros mínimos ou mesmo prejuízos. Quando desportivamente voltarmos ao nosso melhor a verdade é que não sei onde poderemos chegar!

— Hermínio Loureiro não continua na Liga. A saída, no fim do mandato, é uma perda para o futebol português?
 
— Trata-se de uma pessoa que dedicou ao futebol português o melhor dos seus últimos anos e trabalhou de forma empenhada e com isenção. É evidente que se a sua decisão de não se recandidatar se mantiver será uma baixa importante para o futebol.

— Quem deverá suceder a Hermínio Loureiro? Essa é uma matéria que preocupa o Benfica?
— Acho que é uma matéria que deve preocupar aqueles que têm responsabilidades no futebol português. Mas na minha perspectiva, Hermínio Loureiro deveria repensar a sua posição. Não faz sentido abandonar a Liga neste momento. Iniciou um trabalho que deve completar. Qual é o problema de acumular a presidência da Liga com a presidência da câmara? Já se esqueceram que houve um presidente da Liga que acumulou durante muitos e muitos anos?

— Como estão as relações entre Benfica e Sporting?
— Estão bem, são relações normais entre duas instituições que se respeitam.

— Vê possibilidade de Benfica e Sporting assumirem posições comuns em matérias estruturais do futebol português?
— O Benfica, em tudo o que tiver a ver com melhorias a nível da transparência no futebol português, está disponível para assumir posições comuns com quem defenda os mesmos princípios. Se for com o Sporting será, sem qualquer problema, com o Sporting!

— Acredita que estamos a assistir ao início de uma mudança de ciclo, uma antecâmara da passagem da hegemonia desportiva do FC Porto para o Benfica?
— Preocupa-me pouco o que se passa ao lado, só me preocupa o que se passa nesta casa e, nesse capítulo, estou certo de que estamos a construir um projecto sustentado que nos vai permitir edificar um edifício desportivo de sucesso. Não faço as coisas em função do que os outros fazem, mas sim em função da minha convicção do que é ou não melhor para o Benfica.

— Como caracteriza as várias fases por que passou o futebol do Benfica desde que chegou ao clube, ainda no mandato de Manuel Vilarinho, como gestor do futebol?
— Foram fases muito diferentes. Houve um primeiro momento em que o único projecto que tínhamos era a de salvar o Clube, depois o de recuperar o seu património, depois começámos a desenvolver o futebol e, agora, finalmente, estamos a consolidar todo esse projecto. A tudo isto, e é bom não esquecer, conseguimos juntar a credibilização do Benfica enquanto instituição, algo que há nove anos atrás se tinha perdido!

— Se voltasse ao princípio desta caminhada no Benfica teria dito sim ao convite para entrar no clube?
— Creio que sim, talvez tivesse feito algumas coisas de forma diferente, mas isso é próprio da vida. Infelizmente, não temos uma segunda oportunidade para fazer diferente, por isso não vale a pena lamentar-me muito. É fácil tomar decisões conhecendo as suas implicações no futuro, mas como tal não é possível, não vale a pena perder muito tempo com isso. Em todo o caso, no conjunto de todos estes anos, era difícil fazer de forma diferente!

— Sente-se recompensado pelos alertas que fez contra a corrupção no futebol português?
— Sinto, simplesmente, que fiz aquilo que devia ser feito e que se não fosse isso talvez hoje continuássemos a viver na intolerável mentira de outros anos!

— O Benfica foi derrotado na justiça desportiva europeia?
— Não, a justiça desportiva é que foi derrotada em algumas instâncias do futebol europeu, o que é bastante diferente!

— Como viu a absolvição do FC Porto pelo TAS e a alteração do regulamento disciplinar da UEFA?
— Acho simplesmente que fugiram de um problema, mas independentemente de terem feito vista grossa, todos os que estiveram envolvidos no processo perceberam a dimensão do escândalo.

— O Apito Dourado fez justiça, foi longe demais ou deveria ter ido mais longe?
— Não quero voltar a um capítulo que já todos conhecem, mas é evidente que apesar de algumas decisões judiciais e de outras que alguns perspectivam e anunciam com fanfarronice …- lá saberão porquê e como o podem garantir - ninguém já tem dúvidas do que realmente aconteceu. O importante é garantir que situações como aquelas que foram conhecidas e denunciadas não voltem a repetir-se no futebol português.

SER OU NÃO SER REMUNERADO...— Quantas horas diárias dedica ao Benfica e quantas horas gasta com as suas empresas?
— Não sei contabilizar o tempo que estou ao serviço do Benfica, mas sei que dedico muito menos tempo do que devia ás minhas empresas. Mas não me queixo, tenho orgulho em ser Presidente do SL Benfica e tenho um compromisso com a palavra dada, que venho respeitando. Este lugar só pode ser assumido com espírito de missão e colocando os interesses do Benfica acima de tudo. Sou dos chamados «três grandes» o único Presidente não remunerado e isso é para mim motivo de orgulho. Mal do Benfica quando tiver de ter um Presidente remunerado...

— Na época passada falhou, por indicação médica, devido a problemas de tensão, muitos jogos do Benfica. Nesta temporada tem ido a todos. Melhorou ou deixou de dar ouvidos ao médico?
— Digamos que passei a ouvir menos os médicos…

— Tem feito milhões de quilómetros para estar junto dos benfiquistas. Sente-se recompensado, ou, a páginas tantas, o cansaço físico leva-o a pensar duas vezes sobre a sua capacidade de manter este ritmo?
— É evidente que o desgaste físico é muito grande, mas creio que os benfiquistas que diariamente se dedicam ao Clube e que também fazem muitos sacrifícios durante o ano merecem que o Presidente esteja disponível e próximo deles, nomeadamente através das suas Casas espalhadas pelo País e pelo Mundo fora. Tenho-o repetido em diversas ocasiões, as Casas representam verdadeiras «embaixadas» e merecem toda a nossa atenção. Para mim sempre foi claro que o Clube existe em função dos seus sócios e simpatizantes e é para eles que tenho virado a minha atenção.

— Falou dos sócios, e por declarações recentes, continua a creditar ser possível chegar aos 300 mil sócios?
— Sinceramente acredito que é possível. Ainda há pouco tempo atingimos os duzentos mil e em pouco mais de um mês e meio já fizemos mais cinco mil sócios. A equipa de futebol, que é no fundo a principal referência, tem sido «empurrada» pelos sócios e eu noto que há muita gente que quer formalizar a sua ligação ao Clube. Estou convencido que vamos atingir a meta proposta, mas não me peçam uma meta temporal.

CONSEQUÊNCIAS DA VITÓRIA ELEITORAL— O que significou para si a esmagadora vitória eleitoral de Julho de 2009?
— Foi um momento de avaliação e de responsabilização pelo passado e futuro do projecto, mas ao mesmo tempo foi um movimento popular impressionante. Quem viveu os dias anteriores à eleição, com as várias manobras jurídicas, com uma campanha dominada por insinuações sem fundamento, sabe do que falo. É evidente que fiquei sensibilizado com o apoio recebido e, principalmente, pela forma expressiva como foi manifestado.

— As candidaturas da oposição, a que foi às urnas e a que não passou do papel, tinham agendas secretas, objectivos escondidos, que partiam da base da tomada do poder no Benfica?
— Não sei o que tinham, mas sei o que seguramente não tinham: não tinham uma ideia ou um projecto para o Benfica e os sócios perceberam isso. Repito hoje, o que disse antes e durante a campanha: a minha porta está sempre aberta para receber quem tenha boas ideias. Ainda ninguém, desses senhores, bateu à minha porta!

— Se as eleições não tivessem sido antecipadas, o Benfica (consigo ou com outro...) estaria como está hoje?
— Seguramente a planificação teria sido atrasada e, em consequência, prejudicada a performance desportiva da equipa. A antecipação das eleições, por sinal até dada altura reclamada por alguns candidatos, permitiu planificar melhor, com outra serenidade. Mas permitiu mais, permitiu retomar negociações com parceiros importantes do Benfica e que o «barulho» que alguns criaram a determinado momento, obrigaram a parar. A antecipação eleitoral foi um acto legal e estatutário (como os tribunais vieram a demonstrar) em favor do Benfica e não a favor de A ou de B. E é bom que as pessoas entendam isso. E aquelas que estão de boa-fé assim o entendem.

— As suas propostas foram aprovadas na última AG do clube. Sente-se legitimado para promover algumas alterações de fundo no clube. Porquê e para quê?
— A proposta que mereceu aprovação na última Assembleia Geral relaciona-se com o plano de reestruturação financeira que nos permite defender melhor os interesses do universo Benfica, resolver alguns problemas que precisavam de ser solucionados e, ao mesmo tempo, responder a requisitos legais a que estamos vinculados. Mas tudo isto foi feito e minuciosamente explicado aos sócios, com o clube a manter a posição dominante em todas as empresas do universo Benfica. E isso foi sempre condição prioritária para mim. De outra maneira, não contem comigo. O Clube é dos sócios e assim continuará a ser enquanto eu estiver a liderar os seus destinos.

OLHAR DA JANELA DA HISTÓRIA — Quando se afastar do Benfica, que clube gostaria de deixar ao seu sucessor?
— Gostaria de deixar o Clube que eu gostava de ter encontrado, mas creio que o meu sucessor não vai ter motivos de queixa da realidade que vai encontrar…

— Até que patamar pode chegar o Benfica?
— O Benfica chegará até onde os seus sócios quiserem. O Benfica é muito mais do que um clube português, é um clube do Mundo, admirado e respeitado por todos. Se continuarmos a fazer o nosso trabalho da maneira certa vamos crescer até onde nunca imaginámos que poderíamos chegar. Portugal precisa de um Benfica forte. Dito de outra forma, o País tem muito a ganhar com a vitalidade e sucesso do Sport Lisboa e Benfica.

— Por qual destas expressões gostaria de ficar conhecido no universo benfiquista: «Presidente do povo»; «Presidente da mudança»; «Presidente das vitórias»; «Presidente da renovação»; «Presidente da modernidade»?
— Apenas como alguém que veio do povo e que se dedicou de alma e coração ao Sport Lisboa e Benfica, para mudar, renovar e inovar e que tudo tem feito e continuará a fazer para engrandecer o nome e a história deste clube.

Entrevistas (IV)


Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

Entrevista de Luís Filipe Vieira



Por JOSÉ MANUEL DELGADO

LUÍS FILIPE VIEIRA, nesta entrevista que concedeu a A BOLA mostrou-se, à entrada de um ano importante para a vida do Benfica, não só porque foi campeão de Inverno e tem reais possibilidades de chegar ao título mas também porque em Outubro haverá eleições, muito confiante no projecto que já lidera há vários anos. Vieira passa em revista a vida económico/financeira do clube, as linhas mestras da estratégia encarnada, a Benfica TV e os direitos televisivos, a entrada em cena de Rui Costa, os casos de arbitragem, os Apitos, as renovações (já que não se vislumbram contratações em Janeiro) no futebol a mudança que houve nas Modalidades e deixa sempre a ideia de que, cada vez que conhece melhor o Benfica, mais admira os benfiquistas e melhor se sente junto das bases. Quanto à recandidatura, mantém tabu. Mas sempre adianta que «o Benfica é um projecto que nunca se completa», ou seja, nas entrelinhas lê-se que não dá por terminada a sua missão no clube. E tem uma resposta curiosíssima quando se lhe pergunta se tem a vida organizada em função do Benfica: «Diria, de forma contrária, que tenho a minha vida desorganizada de forma a poder passar muitas horas por dia no Benfica. Mas não digo isto com qualquer ponta de insatisfação, pelo contrário. Gosto do que faço, gosto das horas que dedico ao Benfica e gosto da forma como sinto, todos os dias, a equipa com quem trabalho motivada a continuar.»

(Pág. 3)


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LUÍS FILIPE VIEIRA «O Benfica é um projecto que nunca se completa» 

No início de 2009, que muitos vêem como 'o ano de todos os perigos' devido à crise financeira mundial, o presidente do Benfica mostra segurança nas respostas, orgulho nos projectos já concretizados e confiança naquilo que ainda está a meio caminho. E quer ser campeão nacional, «para poder dar essa satisfação aos benfiquistas»

Entrevista de JOSÉ MANUEL DELGADO

O ano de 2008 acaba com o Benfica em primeiro na Liga, algo que não acontecia há 15 anos. No entanto, não foram tempos nada fáceis, especialmente a partir do momento em que Camacho saiu...

— Cada tempo tem as suas dificuldades e 2008 não escapou à regra, mas não foram maiores que outras que enfrentámos no passado - em que tivemos de recuperar o Benfica, assumir responsabilidades alheias e, ao mesmo tempo, combater a falta de verdade desportiva que se vivia no futebol português - apenas foram diferentes. Foi um ano em que desportivamente falhámos, e isso deixa sempre marcas, mas o Benfica começa, agora, a poder, finalmente, concentrar-se apenas na vertente desportiva, e isso vai reflectir-se a curto prazo. Acabar o ano em primeiro lugar é importante, é sinal de que estamos a trabalhar melhor do que no passado, mas, como outros já disseram antes de mim, é algo simbólico e aquilo que realmente queremos é ganhar o campeonato. É em Maio que temos de chegar em primeiro!

— Os objectivos empresariais já foram alcançados, faltam os objectivos desportivos?

— O fim tem de ser sempre o de ganhar no campo, mas toda a gente sabe de onde partimos. Hoje, o Benfica é reconhecido como uma organização que, do ponto de vista empresarial e financeiro, conseguiu - com uma gestão equilibrada - alcançar as metas propostas, mas de facto, ainda não conseguimos alcançar aquilo que ambicionamos do ponto de vista desportivo. A verdade é que sempre disse que a começar por algum lado teria de ser pela vertente financeira, mas o objectivo final tem de ser o êxito desportivo. Toda a gente compreende que no estado em que encontramos o Benfica, a nossa primeira prioridade foi estabilizá-lo e retirá-lo do coma em que se encontrava. Agora sim, repito, estamos em condições de nos começar a concentrar no capítulo desportivo. Daí também o investimento que fizemos este ano!

— Teme que o esforço financeiro feito pelo Benfica em 2008/09 na equipa principal possa ser boicotado por forças externas?

— A única coisa que devemos temer é pela sucessão de erros de arbitragem que adulteram a verdade desportiva, nem sempre com a respectiva responsabilização dos seus intervenientes. O esforço que fizemos para reforçar a equipa foi planeado e pensado em função do lugar que queremos devolver ao Benfica. É um investimento que todos os sócios e adeptos merecem. Mas é evidente que nenhum esforço fica a salvo de situações como as que se viveram no jogo contra o Nacional, e nem sequer foi caso único, nem isolado. Foi apenas o último de muitos erros que já nos prejudicaram ao longo desta época. Fomos os últimos a falar de arbitragem, quisemos ficar de fora, dar o benefício da dúvida, mas pelos vistos esta atitude foi penalizadora para nós.

CARLOS XISTRA, OLEGÁRIO, LUCÍLIO...

— Em que outros casos encontrou razões de queixa?

— Toda a gente se lembra da actuação de Carlos Xistra em Guimarães, dos dois jogos de Olegário Benquerença contra o Leixões. São dois nomes que impõem ponderação séria em futuras nomeações para jogos do Benfica, sem esquecer - porque é impossível pelo que foi a sua actuação no Estádio do Bessa o ano passado - Lucílio Baptista. Resumindo, eu não diria que não são forças externas, pelo contrário, são bem conhecidas!

— Pedro Henriques reafirmou que manteria a decisão...

— Sinceramente foi aquilo que mais me impressionou. Nunca vi um árbitro dar tantas entrevistas para justificar uma decisão, quase diria que se tentou convencer a ele próprio de que tinha razão.Para mim, tudo aquilo que se passou no jogo e depois dele foi uma surpresa desagradável em face da opinião que tinha de Pedro Henriques. No entanto, espero que aquilo que sucedeu no jogo com o Nacional tenha sido um acidente de percurso. Quero manter a minha confiança na Comissão de Arbitragem presidida por Vítor Pereira.

— Pretende manter, apesar de erros de arbitragem, como com o Nacional, uma cultura de exigência e responsabilização dos jogadores do Benfica?

— Os erros de arbitragem devem ser discutidos e tratados no local próprio. A cultura de exigência que devemos reclamar dos nossos profissionais é independente de tudo o resto e não vale apenas para os jogadores da nossa equipa profissional de futebol, nem é apenas uma reclamação de agora, é de sempre. A exigência é uma regra neste clube para todo o universo de atletas e funcionários. É um enorme esforço, aquele que se nos pede, um esforço em que ninguém é dispensável, porque o ciclo económico que está para chegar vai obrigar-nos a mobilizar todas a nossas capacidades. Aquilo que eu peço hoje foi o que sempre pedi desde que cheguei ao Benfica: trabalho sem limites, dedicação enorme!

— É possível que o Benfica mantenha Suazo, por exemplo, no plantel de 2009/10?

— Infelizmente, a decisão não está apenas nas nossas mãos. O que temos é um contrato de empréstimo sem opção de compra, por exigência, então, do Inter. Mesmo que haja vontade da nossa parte, não temos autonomia em relação a essa decisão. É um jogador que tem as características profissionais e humanas que este clube procura, vamos aguardar e ver os desenvolvimentos, na certeza de que se nos for dada a oportunidade vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o manter cá. Mas tenho a convicção de que não vai ser fácil.

— A continuidade de Reyes depende fundamentalmente do Benfica?

— A situação em relação ao Reyes é diferente. Já é público, o Rui Costa já o assumiu. A decisão, neste caso, é nossa. Há uma opção de compra assumida, portanto, neste caso a situação é completamente diferente da anterior, temos a capacidade de manter o atleta do nosso lado.

— O Apito Dourado e o Apito Final trouxeram algo de novo ao futebol português?

— Trouxeram, pelo menos, a denúncia de que o futebol português viveu à sombra de uma mentira durante muitos anos. Mas trouxeram mais, a certeza de que ainda há pessoas íntegras, capazes e preocupadas com a verdade, e isso é algo que devemos saudar. A nível da justiça desportiva já houve condenações. A nível da justiça comum, os processos continuam. São processos complexos, demorados, mas já percebemos todos que durante anos houve esquemas que adulteraram a verdade desportiva. É tão claro, hoje, o que se passou ao longo de anos! O mais absurdo de tudo, e que é o melhor indicador de tudo o que disse até aqui, é que a defesa de algumas pessoas está preocupada apenas na não admissão da prova em vez de, como devia, estar fundamentada na contestação da prova. A prova existe, ninguém a contesta, ninguém recusa que tenha acontecido, nem como aconteceu. Estão unicamente preocupados em impedir que possa ser usada. Já todos percebemos o que aconteceu e isso é algo que já ninguém pode apagar!

— O Benfica tentou fazer valer os direitos que entendia assistirem-lhe junto da UEFA, a propósito da condenação por tentativa de corrupção de Pinto da Costa, mas não viu o assunto resolvido em 2008/09. O seu clube vai continuar empenhado nessa luta?

— Esse sempre foi um problema da UEFA a que o Benfica respondeu quando foi chamado. Quem deve continuar empenhado na luta pela verdade desportiva deve ser a UEFA e a própria Federação Portuguesa de Futebol. Aliás, devo lembrar que os órgãos da FPF ratificaram as decisões da Comissão Disciplinar. O futebol defende-se agindo contra quem viola as regras e põe em causa a verdade desportiva. O que nos moveu foi uma questão de princípio e por isso, independentemente de sermos campeões este ano, vamo-nos manter vigilantes!

— Hoje, a chamada oposição interna, sente-se menos do que quando pegou no clube?

— Não sei, nunca tive como uma das minhas preocupações diárias medir o grau de oposição com que esta direcção contava. As críticas não me preocupam, desde que sejam construtivas e não façam mal ao clube, desde que não sejam oposição ao próprio clube. A minha preocupação está focada para outras coisas bem mais importantes. Hoje parece que tudo foi fácil, que o clube viveu sempre como vive hoje. Muitos dos que hoje reclamam, esqueceram-se do que foi a herança que tivemos de assumir e do que isso significou em termos estruturais. O Benfica correu o risco de desaparecer. Muitos daqueles que no passado só se aproveitaram do Benfica, que se conformaram com a gestão de Vale e Azevedo, que nunca se atreveram a questionar o caminho que estava a ser seguido pelo clube, são aqueles que hoje se limitam a criticar. Criticam com um único intuito: fazer regressar o clube ao tempo da anarquia e da instabilidade. Não têm uma ideia, um projecto, apenas uma vontade: voltar a ter protagonismo.

AS RELAÇÕES COM O 'NOVO' RUI COSTA

— A entrada em cena de Rui Costa como director desportivo e administrador da SAD tem correspondido às expectativas que nele depositava?

— Sem dúvida. O Rui faz parte do passado e do presente deste clube e representa, ao mesmo tempo, o seu futuro. Conheço-lhe, como poucos, as suas qualidades. Sei da competência, do querer e do empenho que põe em tudo o que faz. O Rui Costa é a nossa melhor garantia de um projecto desportivo sustentado e integrado.

— Como são as suas relações diárias com Rui Costa, que informações partilham, que impressões trocam?

— Como devem ser. Falamos de tudo, partilhamos tudo, do futebol e da administração, mas ele sabe que tem autonomia. E essa autonomia vem da confiança que todos temos no seu trabalho. Foi por isso que esperei por ele, e o trabalho realizado até agora é a melhor garantia de que há um projecto!

— Quique tem bom ambiente entre os adeptos. Isso ajuda a manter em alta o apoio à equipa?

— Os adeptos perceberam o que está em causa. Têm sido insuperáveis no apoio que têm dado à equipa. Tenho a certeza de que esse apoio se vai manter, porque é uma parte fundamental deste projecto. Sem o apoio dos adeptos não faz sentido todo este trabalho!

— São de esperar reforços no Benfica durante em Janeiro?

— Não, isso não está nas nossas cogitações. A SAD entende que o plantel é suficiente para que os objectivos sejam alcançados.


As recomendações dos médicos 

O presidente do Benfica garante que não lhe «falta energia para as batalhas de 2009» ironizando que «apenas aquilo que me falta é autorização médica, porque ando com a tensão muito alta, para assistir aos jogos do Benfica, ao vivo ou na TV.» Assim se explica a ausência de Luís Filipe Vieira (que há um ano esteve internado com uma pneumonia, mal completamente debelada) dos últimos jogos dos encarnados. Vieira fez questão de elucidar que «esta situação deverá manter-se ainda durante mais algum tempo.»

No entanto, o líder encarnado deixou a pedagogia de lado e não escondeu o bichinho que o ataca cada vez que o Benfica actua, abrindo outra possibilidade para ver as partidas do actual comandante da Liga: «Bom, não vou aos jogos, pelo menos enquanto não me decidir a ignorar as recomendações médicas...!»

«Não nos queixamos de falta de militância» 

Luís Filipe Vieira tem-se desdobrado, dentro e fora das fronteiras pátrias, em encontros com a nação encarnada. No início do primeiro mandato, em 2003, Vieira era tímido nessas manifestações. Hoje, não esconde o prazer enorme que sente no contacto directo com as bases.

«Este ano» diz o presidente encarnado, «os sócios e simpatizantes têm sido de uma dedicação total, têm apoiado a equipa, têm sabido estar presentes nos momentos bons, mas principalmente nos momentos menos bons, e isso temos de o saber destacar.» Feito o elogio - aliás confirmado pelas estatísticas de assistências aos jogos da Liga de Clubes, onde a média caseira é de 43 mil espectadores - Luís Filipe Vieira fez questão de afirmar que, «o Benfica, ao contrário de outros clubes, não se queixa de falta de militância!»

(Pág.4 e 5)


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«Rui Costa faz parte do passado e do presente e representa o futuro»

— Tem feito da verdade desportiva um dos pontos fortes do seu discurso. Sente que esta época há sinais de mudança positiva, ou, na prática, pouco mudou?

— Quero acreditar que algo mudou, mas a prática leva-me a ser prudente nesse capítulo. Espero que os agentes desportivos não percam a oportunidade que foi dada pela justiça desportiva para cortar com o passado. Seria demasiado grave para todos se assim não fosse!

O BENFICA E A CRISE FINANCEIRA MUNDIAL

— O actual quadro competitivo no futebol profissional está à altura das expectativas do Benfica?

— É público que o Benfica está interessado em melhorá-lo, mas como fez até aqui, as propostas serão sempre apresentadas dentro da Liga, aos seus órgãos e dirigentes. Em todo o caso posso adiantar que o Benfica está disponível a ajudar a Liga a fazer investimentos no capítulo da arbitragem, seja em meios tecnológicos, seja na profissionalização. Não temos preferência em relação a nenhum deles, estamos disponíveis para ajudar desde que daí resultem melhorias significativas para a arbitragem portuguesa.

— Há condições, no seio da Liga, de promover alterações que não só moralizem o futebol, mas também ajudem a criar riqueza, evitando a praga dos salários em atraso que aflige muitos clubes ditos profissionais?

— Creio que neste momento há condições e vontade de trabalhar no sentido de moralizar o futebol e obter mais receitas. É evidente que - a nível económico - o que aí vem vai obrigar a Liga a redobrar esforços, mas com uma estratégia concertada e as opções certas penso ser possível superar as dificuldades que se adivinham. Do Benfica podem esperar total cooperação. Mas denunciaremos sempre os jogos de poder que se instalam em algumas Assembleias Gerais, como aqueles que se viveram quando recenetemente se discitiam propostas para alteração do Regulamento Desportivo.

— A crise financeira mundial afectou muitas instituições bancárias. Esse facto teve reflexo no dia-a-dia do Benfica?

— Não, pelo menos para já. Mas o Benfica não é uma 'ilha' e é natural que as restrições ao crédito bancário que estão a afectar a economia também se façam sentir neste sector. Antecipando esse tipo de problemas iniciámos já uma diversificação das fontes de financiamento, em particular com a emissão de Papel Comercial que terá lugar durante Janeiro.

SEM DECISÃO OFICIAL DE RECANDIDATURA

— Qual foi a evolução da situação financeira do Benfica ao longo de 2008?

— Este é um ano de forte investimento e por isso não são de esperar resultados financeiros em linha com as últimas épocas.

Comparativamente a 2007/2008, as contas serão afectadas por dois factores. O primeiro e o mais relevante pelo seu impacto, o facto do Benfica não ter alienado o passe de qualquer um dos seus jogadores mais importantes e teve oportunidade para o fazer. O segundo, de menor expressão, a saída prematura das competições europeias. Mas neste caso, acredito que compensaremos o diferencial com uma melhor performance na Liga.

— 2009 é ano de eleições no Benfica. Vai recandidatar-se?

— Ainda faltam alguns meses até lá e muito trabalho pela frente. Não quero dizer ainda nada a esse respeito, devemos viver um dia de cada vez. No tempo certo farei a minha avaliação e tomarei uma decisão, sendo certo que a minha família - a grande prejudicada durante todos estes anos - terá uma palavra importante a dizer.

— É um cenário plausível que a questão dos direitos televisivos venha a influenciar, até com a chegada de outros candidatos, as eleições?

— Não creio, isso seria admitir que há benfiquistas que estariam interessados em candidatar-se, não porque tivessem um projecto para o Benfica, mas apenas para serem 'testas de ferro' de determinados grupos, e isso eu recuso-me a acreditar que seja possível. É demasiado mesquinho!

— O que está, em seu entender, ainda por fazer no Benfica, depois do saneamento financeiro, do novo Estádio, do Centro de Estágio e Treinos do Seixal e da Benfica TV?

— O Benfica é um projecto que nunca se completa, haverá sempre novas metas por cumprir. O que fizemos até aqui foi um trabalho de recuperação do Clube, a nível das suas infra-estruturas, a nível da sua credibilidade, a nível da sua organização. Isso foi feito, agora temos de nos preocupar em voltar a implementar uma dinâmica vencedora no domínio desportivo.

— O Benfica continua a representar uma substancial fatia do mercado nacional. Até onde pode crescer, o que está a ser feito nesse âmbito?

— Não queremos ser como os outros, queremos continuar a crescer e há apenas uma estratégia: valorizar as pessoas, porque verdadeiramente são elas o motor do Benfica. Não são as acções em bolsa, a SAD, ou os activos, o importante são os benfiquistas, são a única coisa que verdadeiramente é insubstituível! Por isso é que eles estão sempre no centro das nossas preocupações! Vamos continuar a inovar a nível de novos produtos que possam cativar mais sócios, que façam as pessoas aproximar-se do Clube. O Kit de sócio, os parceiros associados, todas as campanhas promocionais, e todo um conjunto de empresas que vão desde a área da saúde, às telecomunicações e viagens. É por aqui que passa o Benfica.

— Como vai ser a expansão e fundamentalmente a solidificação da marca Benfica nos países de expressão portuguesa?

— É um mercado em que devemos apostar fortemente. Estamos ligados a eles pela língua, pela cultura, pelos afectos mas também pelos muitos jogadores desses países que ajudaram a construir a memória do Benfica. Pessoalmente, acredito nas virtudes das relações de proximidade, nos contactos directos, no intercâmbio de experiências. Aliás, a digressão que fizemos no ano passado, é a melhor prova do que acabo de dizer. Temos de voltar com regularidade a esses países, porque eles também fazem parte da nossa história.

— Gosta de ser presidente do Benfica, é-lhe confortável andar de Casa em Casa, junto das bases?

— A coisa que mais me agrada é o contacto directo com os benfiquistas. Sempre procurei ser um presidente próximo de todos, porque sei que a verdadeira força no clube está nas bases, está nas pessoas. Quando aqui cheguei assumi o desafio numa perspectiva de missão, mas nunca irei reclamar que salvei o Benfica, nunca o ouvirão da minha boca. Fomos todos que conseguimos trazer o Clube até aqui, servi apenas como um farol que conseguiu alertar e congregar os sócios à volta Clube. Mas também é verdade - como tenho repetido nas Casas que visito - que os sócios - que conseguiram fazer recuperar o Benfica - têm de manter o mesmo nível participação na vida do Clube, que tiveram nos momentos mais críticos. Quaisquer que sejam as decisões que importa tomar, elas devem ser partilhadas e sufragadas pelo maior número de sócios possível em cada momento, porque só assim se pode reforçar o Clube e ambicionar o seu crescimento. O Benfica será tanto maior quanto maior for a participação dos seus associados na partilha das opções que devem ser tomadas.

DA VIDA PESSOAL, AO 'DESASTRE' DE ATENAS

— Tem a vida organizada de forma a continuar a dedicar várias horas diárias ao clube?

— Diria de forma contrária, tenho a minha vida desorganizada de forma a poder passar muitas horas por dia no Benfica. Mas não digo isto com qualquer ponta de insatisfação, pelo contrário. Gosto do que faço, das horas que dedico ao Benfica e da forma como sinto, todos os dias, a equipa com quem trabalho motivada a continuar. Nos últimos anos temos conseguido antecipar problemas e desenhar as respectivas soluções. É esta mentalidade que nos vai permitir continuar a crescer.

— Sinceramente, acredita que o Benfica, que tem sido tão irregular exibicionalmente, tem condições para chegar ao título nacional?

— Creio que temos todas as condições para lutar pelo título.

— O que disse a jogadores e técnicos depois do «desastre» de Atenas?

— Que quando acreditamos no trabalho que está a ser desenvolvido, temos de manter o rumo, independentemente de alguns acidentes que possam acontecer.
Que quando acreditamos no trabalho que está a ser desenvolvido devemos levantar a cabeça e manter o rumo.

— Que votos gostaria de formular para 2009?

— Para o ano que agora começa gostaria de poder oferecer a todos os benfiquistas o título de campeão nacional. Sei que a equipa está empenhada de alma e coração nesse grande objectivo. Espero que nos deixem ganhar a Liga dentro de campo! Fora de campo, nunca, como outros já fizeram


«Defenderei intransigentemente o justo valor dos nossos jogos » 

A Benfica TV é, por si só, um terramoto no meio audiovisual do desporto em Portugal. Uma
aposta de que Vieira se orgulha

— Pode falar-se da Benfica TV como uma revolução não só nos clubes mas também no audiovisual?

— Sem dúvida. Por um lado a Benfica TV é um projecto estruturante para o clube, um instrumento que vai mudar a maneira como comunicamos com sócios e adeptos. Mas se é verdade que seguimos o caminho já percorrido por alguns clubes europeus, mesmo assim conseguimos inovar: o canal vai emitir 24 horas, sem necessidade de subscrição e numa lógica de abertura a toda a vida do clube e não apenas ao futebol. Por outro lado, a nível do audiovisual vai permitir-nos defender melhor o valor dos nossos direitos televisivos.

— Que esperanças deposita realmente no desenvolvimento do canal?

— Todas. De dia para dia sente-se que o canal está a crescer. Como qualquer projecto desta dimensão, há sempre aspectos a corrigir e a melhorar na sua fase de arranque, mas sinto que a Benfica TV é uma realidade com um grande peso e cuja existência, repito, vai ser fundamental para a defesa dos nossos direitos.

— A tendência, com o advento da Benfica TV, será de não renovar com a Olivedesportos e a partir de 2013 ter todos os jogos do clube no canal «da casa»?

— A tendência será a de defender de forma intransigente os direitos do Benfica e o justo valor dos nossos jogos. Toda a gente sabe em que condições o presente contrato foi assinado, em Maio de 2003 e o valor que recebemos. Mas toda a gente sabe a diferença a nível de audiências que os nossos jogos têm em relação aos demais. Não se podem tratar de forma igual realidades diferentes. Isso tem de acabar. Há várias maneiras de o fazer, veremos na altura própria o caminho que vamos seguir!

«Modalidades? Gestão rigorosa, máximo empenho» 

A mudança nas Modalidades do Benfica é vista por Luís Filipe Vieira como tendo origem em «decisões pouco rigorosas, mas convenientes em função do protagonismo mediático que algumas pessoas podem obter, mas que do ponto de vista da gestão se revelam profundamente erradas.»

Quanto às opções a tomar, Vieira diz que o Benfica tinha «dois caminhos, manter o rumo que levava e possivelmente, hoje, já teria sido obrigado a fechar algumas das Modalidades ou alterar o rumo e conseguir combinar uma gestão orçamental rigorosa com a exigência de máximo desempenho desportivo. Foi isso que foi feito e é para aí que devemos apontar.»

Para o presidente dos encarnados «temos sempre uma estranha tendência para discutir mais o curto prazo do que o médio e o longo prazo», esclarecendo que «quando o problema se levantou, a primeira coisa que fiz foi reunir com todos os treinadores e seccionistas das Modalidades, pedi-lhes apoio para que trabalhássemos em conjunto. Devo dizer que foram inexcedíveis.»

Acabou por ser uma das figuras emblemáticas do Benfica, Carlos Lisboa a assumir responsabilidades na área. Luís Filipe Vieira garante que teve, «não só do Director-Geral, Carlos Lisboa, mas de todos os seccionistas e treinadores a compreensão e apoio necessários. Todos entendem o problema e as suas implicações no futuro e todos partilham da solução.»

Claques, gente boa, gente má 

O Benfica em nada alterará a política que tem seguido com as claques. «Faremos como até aqui», diz o presidente, «sabendo que o seu apoio é importante para a equipa e da grande vontade que tem em transmitir esse apoio. Mas enquanto não preenchermos requisitos legais que são exigidos, não os podemos reconhecer enquanto tal!»

Há poucas semanas, membros dos No Name Boys foram presos por actividades que eram tudo menos futebol, como A BOLA titulou. Luís Filipe Vieira, a propósito dessse caso, afirmou que o seu «único desconforto» foi «ter assistido a uma tentativa de confundir o futebol do Benfica com práticas que nada têm a ver com futebol. Há gente boa e má em todo o lado e é bom que as pessoas percebam isso!»

Também houve, em 2008, alguns momentos tensos em Assembleias Gerais, imputados às franjas mais radicais dos No Name Boys.

Vieira desdramatiza, afirmando que, para ele, «os únicos momentos complicados são quando o Benfica não ganha ou quando os golos são mal invalidados, não são as Assembleias Gerais com os sócios.»

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Entrevistas (III)


Sábado, 20 de Junho de 2009

Entrevista de Luís Filipe Vieira ao Jornal "A BOLA"



Entrevista de José Manuel Delgado

José Eduardo Moniz referiu-se ontem a uma troca de sms que teve consigo, depois do jogo da Académica...

— É verdade que houve esse sms, por acaso num jogo em que o Benfica foi altamente prejudicado, como todos se lembram. Mas já que ele revelou essa troca de sms, isso deixa-me à vontade para revelar uma conversa que tivemos em 2003, em que eu lhe chamei a atenção para o facto de ele estar com 31 anos de quotas em atraso, desde 1972. A responsabilidade de qualquer sócio é ter as quotas em dias. E para quem assume a ambição de ser presidente deste clube, não fica bem ter estado durante 31 anos sem cumprir com o Benfica uma das suas primeiras obrigações.

— Moniz falou em golpe estatutário, que comentário lhe merece?

— Devo dizer-lhe que os Órgãos Sociais do Clube vão equacionar o que é que vão fazer. Uma coisa é algumas pessoas sem peso, nem responsabilidade, terem usado essa palavra — que tem uma evidente carga negativa — outra é José Eduardo Moniz. Vamos ponderar aquilo a fazer, na certeza de que cumprimos com os estatutos e defendemos os interesses do Benfica.

— Outra das razões invocadas por Moniz foi a de desconhecer a situação financeira do Benfica?

— Isso nem sequer é um argumento é uma insinuação de má fé. O Benfica tem as suas contas auditadas, apresenta resultados consolidados, aliás é o único clube a fazê-lo. Portanto, a nossa situação financeira é conhecida de todos quantos se interessam por isso. E é, não tenho dúvidas, seguramente melhor que a situação financeira da TVI nesta altura.

— Ficou surpreendido com esta posição de José Eduardo Moniz?

— Não, há mais de dois meses que já sabia destas movimentações. Mas já agora gostava de deixar aqui algumas perguntas a José Eduardo Moniz: como é que iria trazer capital para o Benfica sem vender a SAD? O que é que pensaria fazer aos direitos televisivos do Benfica? E, finalmente que garantia editorial é que ele pode dar em relação à cobertura da TVI, não só na campanha, como depois dela, de toda a realidade do Benfica? Quando ele responder a estas questões, as pessoas vão perceber quais eram os reais interesses dessa candidatura!

RAZÕES QUE LEVARAM A ELEIÇÕES ANTECIPADAS

— O que o levou a propor aos Órgãos Sociais do Benfica que criassem condições para que as eleições fossem antecipadas para três de Julho?

— Limitei-me a acompanhar uma discussão eleitoral que arrancou completamente fora de tempo e que, evidentemente, não era saudável, a nível institucional, manter esta situação até Outubro. Acho que é compreensível que quem está à frente do clube, e depois de três meses a ler e a ouvir críticas de um grupo de pessoas que se constituiu em movimento, entendesse que não podia passar mais quatro meses na mesma situação. Foi por isso que decidi clarificar a situação dando a palavra aos sócios! Acho que foi a atitude mais correcta. No Benfica não temos um regime totalitário em que aniquilamos a oposição, ou um regime monárquico em que o presidente designa o seu sucessor. O Benfica é o clube mais democrático em Portugal.

— A que se deve a sua decisão de avançar para um terceiro mandato?

— A avaliação do trabalho realizado e a convicção de que posso continuar a consolidar tudo quanto foi feito. Podem ter a certeza de que, se da avalização que fiz, entendesse que já não tinha mais nada para acrescentar, não seria candidato. A consolidação do clube esta feita, agora começa a ser o tempo de tirar os dividendos das estruturas que foram criadas durante todos estes anos.

— Como viu, a sua família, esta decisão, que vai mantê-lo debaixo de todos os holofotes?

— Não posso dizer que tenha ficado particularmente agradada com a ideia. Além do tempo que o desempenho destas funções retira à família, há uma exposição excessiva na Comunicação Social. Felizmente, também compreenderam que tudo quanto foi feito para trás necessita de ter continuidade, mas é evidente que vão sair prejudicados.

— Chegou ao Benfica na equipa de Manuel Vilarinho, há oito anos, qual era o estado do Benfica?

— Infelizmente, noto que há muitas pessoas que já não conseguem lembrar-se do estado a que o Benfica chegou há oito anos. Estamos a falar de um clube em processo de auto-destruição. modalidades em via de desaparecimento, a formação completamente abandonada, processos judiciais que nunca mais acabavam (aliás ainda hoje estamos a resolver alguns desses processos), zero de credibilidade a nível nacional e internacional. Enfim, o caos absoluto. Acho que, como disse durante a apresentação da minha candidatura, se pudéssemos fazer uma viagem no tempo, ficaríamos espantados com a diferença. Só assim é que as pessoas entenderiam tudo o que foi feito neste período.

RUI COSTA, JORGE JESUS E O FUTEBOL

— Está satisfeito com as duas grandes opções que tomou relativamente a Rui Costa, primeiro fazendo-o regressar à Luz e depois tornando-o director desportivo e administrador da SAD?

— Sem dúvida, quer como jogador, quer como director desportivo é um valor acrescentado do Benfica. O seu conhecimento, a sua dedicação e o seu empenho ao serviço do clube vão começar, muito em breve, a ser recompensados. Trabalhamos diariamente em equipa e não tenho dúvidas em relação ao seu futuro!

— Mas como tem sido trabalhar durante este primeiro ano com Rui Costa?

— Devo confessar que teve um processo de aprendizagem à nova realidade muito rápido. Trabalhamos diariamente em equipa e as decisões são assumidas dessa forma. Ele ganhou dentro de campo e sabe quais são as condições que são necessárias para garantir o sucesso. É nisso que estamos a trabalhar!

— Se um quiser seguir um rumo e o outro um rumo diferente, quem prevalece?

— Prevalece o Benfica, mas não tem acontecido!

— Crê que desta vez estão a ser criados os mecanismos capazes de levar o Benfica ao título?

— Creio que mais do que levar o Benfica ao título, sinto que estão criadas as condições para ganhar de forma regular. Não nos interessa ganhar uma vez e voltar a passar vários anos longe dos títulos. As condições estão criadas para podermos aspirar a ganhar durante vários anos consecutivos.

— Voltando ao futebol: Luisão, Di María e Katsouranis são para sair? Quem mais, além de Patric, Ramires e Schaffer se perfila no horizonte benfiquista.

— Vou dar uma resposta geral. O nosso objectivo é manter uma equipa forte que nos permita lutar pelos títulos nas várias competições. Não estamos vendedores, a não ser que alguém avance com as cláusulas de rescisão previstas.

— Quem vai faltar para dia 29 de Junho Jorge Jesus poder começar a preparar a época?

— Não vai faltar ninguém. Vamos ter uma equipa competitiva e que seguramente vai cumprir aquilo que esperamos dela.

— Das conversas com Rui Costa e Jesus, que lugares há a preencher no plantel de 2009/10?

— Não vai haver grandes mexidas, mas prefiro que seja o Rui Costa e Jorge Jesus a explicarem, no tempo em que entenderem conveniente, o plantel do próximo ano. A única certeza é que vamos ter uma equipa competitiva que vai tentar para ganhar as competições em que entrar.

— Jesus, um português (e só Fernando Cabrita, Mário Wilson e Toni foram treinadores portugueses campeões no Benfica...) é a aposta certa?

— Tem o perfil que definimos como desejado para assumir o comando técnico da equipa. Tem provas dadas, vive o futebol de manhã à noite, é ambicioso, trabalhador e conhece bem o nosso futebol. É um treinador em quem acreditámos, em quem depositamos grandes esperanças, de outra forma não estaria aqui!

— Como reage quando dizem ou escrevem que o Benfica é um cemitério de jogadores?

— Poucos têm a noção da pressão diária que as pessoas que trabalham no Benfica sentem. A única resposta que posso dar a essa pergunta é que quando se ganha é mais fácil garantir estabilidade. Lembro-me que num ano o FC Porto contratou três treinadores: Del Neri, Fernandez e José Couceiro e ninguém falou de cemitério ou urgência hospitalar. A estabilidade garante-se ganhando, mas também é bom recordar que neste percurso houve alguns treinadores que saíram por vontade deles e não do clube. O caso Cissokho é um bom exemplo da diferença de tratamento e da pressão mediática que o Benfica sofre. Se aquilo que sucedeu com o Cissokho tivesse acontecido com o Benfica, o caso tinha tido um destaque que não teve e teria sido uma novela que iria durar dias. Não se viu nada disso!

— Fez um bom acordo com o Sp. Braga, por Jesus?

— Fizemos o acordo que tinha de ser feito.

— Reyes, fica, vai, qual é o ponto da situação?

— O Rui Costa já o disse, é um jogador de muita qualidade, mas os tempos que vivemos obrigam a ter a noção exacta de que não podemos comprometer o nosso equilíbrio orçamental. Se for possível conciliar estas duas verdades, então podemos pensar nisso.

— O Benfica pode continuar sem entrar no clube da Champions?

— Não, o Benfica não pode continuar a ficar fora da Liga dos Campeões. Ficar fora deve ser a excepção, a regra deve ser estar sempre presente.

— A Liga Sagres de 2009/2010 vai ser mais competitiva, com um Sporting mais apetrechado e um FC Porto preparado para comprar quem lhe aprouver?

— Essencialmente espero que o Benfica seja competitivo!

— Como vê o momento da arbitragem em Portugal?

— Não quero falar de arbitragem, apenas desejar que no próximo ano haja menos erros de arbitragem comparativamente com os que houve este ano e, já agora, espero que quando houver erros eles sejam melhores distribuídos entre os três grandes. Este ano, infelizmente, o Benfica foi aquele que foi mais penalizado. Mas isso nem sequer é uma novidade.

SEIS ANOS NA PRESIDÊNCIA

— O que mudou durante os seus seis anos de presidência?

— Não me tenho cansado de repetir que o valor fundamental que foi recuperado durante este tempo foi a credibilidade do clube. Depois investimos nas infra-estruturas e, nesse capítulo, a decisão de avançar para a construção do novo estádio foi determinante, porque foi à volta dele que os benfiquistas voltaram a acreditar que era possível voltar a ter um Benfica sério, ganhador, credível, enfim, voltar ao antigamente. Depois das infra-estruturas voltámos a apostar na formação e nas modalidades, estruturamos o clube de forma profissional, recuperámos o valor da marca e, mais recentemente, lançámos a Benfica TV. Creio que poderia ficar a falar durante mais algum tempo, mas não vale a pena. A obra está a vista de todos.

— O que falta mudar?

— Basicamente falta começar a obter resultados de forma regular, principalmente no futebol. Sou o primeiro a reconhecer isso, mas é bom que fique claro que nunca enganei ninguém. Quando assumi a presidência do clube, sempre disse que se tivesse de começar por algum lado iria começar pela estabilidade económica. Foi isso que fizemos. Agora, é evidente que é o futebol que tem maior exposição e nesse sentido vamos ter de ganhar mais vezes e de forma continuada.

— Que prioridades estratégicas para os próximos três anos, caso vença as eleições?

— A prioridade para os próximos três anos passa por consolidar o projecto desportivo, recuperar a nossa tradição vencedora. Esse é o principal objectivo. É bom não esquecer que fizemos investimentos de cerca de 250 milhões de euros em infra-estruturas, isso está feito. Temos, agora, de retirar os proveitos desse investimento. Não escondo que nos próximos três anos também gostaria de fazer o museu, avançar para o nosso centro documental de forma a cuidar da nossa história. Mas, como disse no início, a principal prioridade passa por investir no projecto desportivo.

PASSIVOS ACTIVOS

E OUTRAS CONTAS

— É preocupante a SAD ter apresentado um prejuízo de 18 milhões de euros?

— O preocupante é quando somos apanhados de surpresa, o que não foi o caso. É uma situação que se inverte se decidirmos vender um ou dois jogadores, mas neste momento estamos mais preocupados em manter e reforçar uma equipa que seja competitiva e que aponte para os objectivos que queremos alcançar! Mas, de qualquer maneira, o que está no balanço não reflecte a valorização dos nossos activos. Sabe em quanto é que está avaliado o nosso plantel? Sessenta milhões. Acha que o plantel vale apenas isso? Claro que não. O Luisão, por exemplo, está avaliado apenas em dois milhões. Mas isto é um problema que não afecta apenas o Benfica, afecta igualmente o Porto e o Sporting. Bastaria fazer uma reavaliação e a situação seria totalmente diferente. Aliás, houve um ex-presidente que para disfarçar as contas fez isso. Mas dessa vez reavaliou o plantel por valores muito superiores ao que efectivamente valia.

— Está a falar de Vale e Azevedo?

— Não, nada disso. Esse pelo menos assumia os buracos às claras!

— Manuel Damásio?

— Não vou entrar por ai. Podem investigar...

— Portanto, deduzo que não está preocupado com o passivo?

—O passivo tem variado, em termos consolidados, tem variado entre os 300 e os 320 milhões, mas a nível do investimento feito em infra-estruturas, como já disse atrás, foram cerca de 250 milhões de euros (estádio, centro de estágio, Benfica TV). É importante que as pessoas percebam que estas infra-estruturas constituem os principais activos do clube. Quando comprámos uma casa e pedimos dinheiro emprestado ao banco, o nosso passivo aumenta, mas isso não significa que fiquemos mais pobres porque o nosso património também aumentou! É o que acontece com o Benfica, ao passivo que temos corresponde um activo patrimonial elevado.

BENFICA TV E DIREITOS TELEVISIVOS

— A Benfica TV virou de pés para o ar o panorama dos clubes. O próximo mandato será dedicado a rentabilizar, devidamente, por antecipação, os jogos da equipa principal de futebol, vendidos, à Olivedesportos até 2013?

— Em primeiro lugar, devo dizer que a Benfica TV superou as nossas melhores expectativas e, hoje em dia, já ninguém consegue conceber o Benfica sem a sua televisão. Orgulho-me de ter avançado com a Benfica TV, dos seus resultados nestes seis meses de vida e no grau de inovação que representou a nível nacional. Quanto aos direitos televisivos, vamos honrar um contrato que foi assinado numa conjuntura difícil, em que era necessário garantir alguma liquidez financeira. O contrato termina em 2013 e esse será o tempo certo para renegociar esses direitos.

— A chave está no que é actualmente pago em direitos televisivos?

— Sem dúvida, os nossos direitos televisivos, como já disse, valem muito mais. E essa negociação vai ser feita quando chegar o tempo.

— Como classifica a sua relação com Joaquim Oliveira?

— Boa, temos uma relação pessoal e uma relação institucional. Sabemos separar as coisas. Cada um defende a sua instituição da melhor forma que sabe. A amizade não interfere com a defesa dos interesses das instituições que representamos e ele sabe que é assim.

— E a relação entre o Benfica e a Olivedesportos?

— Já disse, é uma relação seria. Dentro de quatro anos vamos ter de renegociar o valor dos direitos televisivos.

— É nos escassos direitos televisivos que reside a razão para o fosso cada vez maior entre Portugal e o resto da Europa Ocidental?

— É evidente que, na realidade que vivemos hoje, os direitos televisivos agravam essa diferenciação. Recordo que em Nápoles, quando do primeiro jogo da UEFA este ano, fiquei a saber que o Nápoles recebe por ano mais de 40 milhões de euros. Assim é difícil combater os argumentos financeiros dos clubes espanhóis, ingleses ou italianos.

— Para quando a Benfica TV na plataforma ZON?

— Quando for encontrada uma plataforma financeira que defenda suficientemente os interesses do Benfica.

A ÉPOCA DE 2008/09 E AS DESILUSÕES INESPERADAS

— Desportivamente, como classifica esta época, não só no futebol, mas na globalidade do clube?

— A nível do futebol é claro que esperava mais. Houve progressos a nível estrutural, mas ficámos aquém das expectativas. Já no capítulo das modalidades e do futebol de formação penso que os resultados foram muito positivos. Os títulos nas camadas de formação (iniciados, que já não ganhávamos há 20 anos), o título de basquetebol que já não ganhávamos há 14 anos, são sinais de que estamos a inverter a tendência destes últimos 15 anos. Por outro lado, não deixa de ser encorajador ver o número de jogadores do Benfica que integram as selecções jovens. É sinal de que o nosso trabalho começa a dar resultados.

— Quanto ao futebol, com este plantel esperava mais?

— Não o escondo, mas temos de ter mais alguma paciência. É evidente que não foi pela falta de um bom plantel que a equipa não foi mais longe. Já fizemos essa análise, houve coisas positivas que foram feitas, mas naturalmente houve aspectos em que falhámos e isso vamos ter de corrigir…

— Qual foi o principal pecado de Quique Flores?

— Não se trata de nenhum pecado, mas talvez não se tenha adaptado à realidade do futebol português. Mas quero deixar aqui bem claro o apreço que tenho pelo trabalho que foi desenvolvido. Houve aspectos positivos que merecem ser destacados, o que não impediu que as partes chegassem à conclusão de que não havia margem de progressão e daí o acordo alcançado.

— Não acha que ao Benfica não servem jogadores que não percebem a grandeza do clube?

— Ao Benfica não servem nem jogadores, nem treinadores, nem funcionários que não percebem a grandeza do clube ou que não trabalham aquilo que deviam trabalhar. Esta camisola tem de ser sentida e honrada. Para mim honrar esta camisola significa dar tudo o que se tem e o que não se tem.

A GUERRILHA

ANUNCIADA

— Quando decidiu partir para eleições antecipadas, o que o moveu? A consciência de que o Benfica ia entrar em clima de guerrilha até Dezembro?

— Já o disse atrás, não é saudável para nenhum clube manter uma discussão eleitoral durante sete ou oito meses. As pessoas tem legitimidade para discordar, para criticar, têm legitimidade para apresentar projectos alternativos, para se constituir em movimento e, portanto, a única coisa que fiz foi encurtar essa discussão. Tenho ouvido durante estes dias muita coisa, mas confesso que tenho dificuldades em ouvir algumas pessoas que já estão em campanha há mais de quatro meses, que já fizeram a peregrinação pelos bancos há mais de um mês e meio, continuarem a falar em falta de tempo!

— Alguns movimentos de oposição congregam pessoas que, em comum, só têm as críticas que lhefazem...

— O problema não são as críticas. O meu mandatário não é uma pessoa alinhada, criticou-me em determinados momentos, mas é o meu mandatário, sinal de que sei ouvir as críticas. O problema é a falta de projectos e de ideias, o problema é quando um determinado grupo de pessoas se reúne em torno de algo apenas por uma vontade revanchista. Apenas pela critica vazia de ideias. Isso é que é preocupante.

— Vários dos seus colaboradores mais próximos acusam-no de teimosia. É assim?

— Sou teimoso, mas sei ouvir e sei dar razão a quem a tem. O novo Estádio da Luz foi fruto da teimosia de alguns, entre os quais estava eu, mas foi essa teimosia que nos devolveu a nossa auto-estima. O centro de estágio foi igual. Agora, pergunta-me, nunca erra? Também erro, claro. Já errei várias vezes, mas sempre na convicção de que estava a fazer o melhor para o clube.

— Se for eleito para novo mandato será o presidente com mais anos consecutivos no poder. Que reflexão lhe merece?

— A única que se pode retirar desse facto, é a de que, depois de todos estes anos, continuo a merecer a confiança dos sócios e aumenta a minha responsabilidade perante eles! Nada mais do que isso.

— Que Benfica vê depois de ter dado várias voltas a Portugal pelas casas do clube?

— Uma das minhas prioridades, desde que cheguei à presidência do Benfica, foi valorizar as casas do Benfica, porque elas representam espaços onde se defendem os valores e a história do clube. Dessas várias visitas sinto que adeptos e sócios sentem um grande orgulho pelo clube que têm e uma grande ansiedade em relação às vitórias. Partilho dessa vontade!.

— Sendo o clube com mais associados do Mundo, porque não gera o Benfica receitas em consonância?

— Não concordo com a afirmação que faz. O Benfica esteve, há dois anos, na lista dos vinte maiores clubes europeus. Hoje já não estamos, mas a nível de merchandising continuamos a verificar que o Benfica está acima de muitos dos clubes que actualmente integram essa lista. E a nível de bilheteira sucede o mesmo. Portanto, diria que a principal diferença tem a ver com o valor dos direitos televisivos.

— Que planos de expansão tem para o Benfica em África?

— África é um mercado natural para Portugal e principalmente para o Benfica. Estamos naturalmente atentos a essa realidade. Os países lusófonos devem ser uma prioridade para nós. A Benfica TV, por exemplo, deve chegar a todos os países de expressão portuguesa. Aliás, o meu desejo é ver a Benfica TV, a médio prazo, em 30 países.

— Ao fim de seis anos na presidência, sente-se feliz por congregar os nomes que conseguiu na Comissão de Honra e no Mandatário da Candidatura?

— Os nomes que constituem a Comissão de Honra são, sem dúvida, um motivo de orgulho, porque são um sinal do reconhecimento em relação ao trabalho realizado. Gente da politica, do desporto, gente com convicções muito diferentes, mas que partilham da ideia de que sempre dei tudo por este clube. E isso para mim é motivo de natural satisfação.

— Está satisfeito com a formação e as modalidades, que obtiveram resultados positivos?

— Tenho orgulho não apenas nos resultados, mas principalmente porque contra a ideia de alguns sempre defendi a manutenção e o reforço de todas as modalidades. As pessoas que me rodeiam no Benfica sabem isso e não são só os resultados que interessa assinalar, mas também a gestão que foi implementada. Gastou-se menos, obtendo melhores resultados. Esse deve continuar a ser o caminho!

— O projecto olímpico é para continuar?

—Sem dúvida, é uma aposta para manter e, eventualmente, reforçar.

— As eleições de três de Julho tiram-lhe o sono?

— As eleições de dia três são um acto que responsabiliza todos os sócios do Benfica, porque o futuro passa por aí.

— Qual é, na sua óptica, o Benfica ideal? Pensa que pode lá chegar?

— O Benfica ideal é aquele que alia a modernidade aos resultados, aos títulos. E sei que vamos lá chegar. Já cumprimos metade, talvez um pouco mais, atendendo aos resultados que começamos a obter na formação, nas modalidades e até no futebol já fomos ganhando de forma intermitente. Temos de consolidar esse capítulo!

MENSAGEM A SÓCIOS, ADEPTOS E ATLETAS

— Que mensagem quer deixar aos sócios do Benfica?

— Uma mensagem de confiança e de optimismo no futuro. Nenhum clube do Mundo conseguiu fazer o que nós fizemos neste espaço de tempo. O Benfica, hoje, é um dos clubes mais modernos do Mundo e isso deve ser motivo de orgulho. Falta ganhar com regularidade, mas vamos faze-lo e completar o circulo que falta fechar.

— E aos atletas?

— Que têm de saber a responsabilidade que é vestir esta camisola. Saber que os sócios e adeptos esperam sempre cada vez mais deles e eles devem corresponder com o seu exemplo, com a sua entrega e dedicação.

— Como se sente, a poucos dias, tudo o indica, de iniciar terceiro mandato no Benfica?

— Nunca se ganha por antecipação, são os sócios que têm a palavra e são eles que devem decidir no próximo dia três.

— Quando estará pronta a comissão de serviço que se propôs realizar na Luz?

— O Benfica é um projecto que nunca se completa. Haverá sempre coisas por fazer. Mas não tenho dúvidas de que a parte mais difícil foi conseguida. Travámos o fim do Benfica, recuperámos o seu património e a sua credibilidade. Quando vai acabar a minha comissão de serviço? Para já depende dos sócios!

— Vai bater-se por jogos à tarde, na Luz?

— Foi uma promessa que fiz ao meu pai e que espero poder vir a cumpri-la, ainda que de forma parcial. Este ano tivemos — para a Taça da Liga — um jogo à tarde e foi uma festa de família. Os jogos à tarde possibilitam esse ambiente. Também sei que as televisões preferem que os jogos sejam transmitidos à noite por uma questão de audiência. Devemos caminhar para o equilíbrio.

— Das suas presidências, qual a equipa ideal?

— Todas as equipas directivas com quem trabalhei prestaram um excelente serviço. Individualizar uma seria um enorme acto de injustiça.

Entrevistas (II)

Domingos Soares Oliveira, entrevistado por João Rui Rodrigues, in Record



"Uma das criticas mais fortes que se tem feito neste período pré-eleitoral tem a ver com os números do passivo do Benfica. Na realidade, qual é o passivo neste momento?
Se falarmos no passivo consolidado, que é que interessa aos benfiquistas, existem duas vertentes: o passivo financeiro, que se situa em 237 milhões no final do último exercício, portanto muito muito abaixo dos 500 milhões falados por alguns, e o passivo não financeiro, que tem a ver com dívidas a parceiros e que se situa nos 119 milhões. Portanto, estamos a falar de um total que não chega a 400 milhões.
Elementos da lista de Rui Rangel insistem no passivo não bancário. O que é isso em concreto?
É aquilo que normalmente tem a ver com compras que se fazem e cuja parte essencial se refere a compra de jogadores. A maioria dos nossos parceiros aceita que o Benfica possa fazer esses pagamentos ao longo de determinado período.
Há alguma razão especial para o passivo ter atingido estes números?
O passivo tem estado razoavelmente estável e tem crescido em consonância com os activos. Aquilo que temos feito desde o investimento no estádio, Caixa Futebol Campus, Benfica TV... Não temos parado de investir, ainda recentemente comprámos o Campo do Bravo para a equipa B, o museu também é um investimento. Quando se fazem estes investimentos, é natural que o passivo e os activos subam. Algumas pessoas estão muito preocupadas com o passivo e ainda não ouvi ninguém falar no aumento de activos cujo valor anda sempre muito próximo do passivo. Para além disso, continuamos a apostar na capacidade do Benfica em gerar receitas. Para lhe dar uma ideia, quando Luís Filipe Vieira chegou, a facturação total do Benfica situava-se nos 42/43 milhões e, neste momento, a facturação é de 140 milhões. Trata-se de um investimento estruturado que vai tendo cada vez mais capacidade de gerar receitas. Talvez as pessoas se esqueçam (e tenho relatórios desde 1994) que o Benfica já estava com capitais próprios negativos, não tinha riqueza própria e o único caminho era recorrer ao endividamento.
Há uma ideia do valor dos activos neste momento?
Há, estão valorizados em 361 milhões, naquilo que é possível reconhecer o valor dos activos. Eu falo sempre na questão dos jogadores porque os jogadores só podem ser avaliados pelo valor pelo qual foram adquiridos deduzindo as amortizações. O Witsel estava reconhecido nos activos como um valor próximo dos 6 milhões e foi vendido por 40. Isto significa que os nossos crivos estão de acordo com as normas locais, mas não estão de acordo com o real valor de mercado.
Rui Rangel tem falado com insistência na necessidade de uma auditoria às contas do Benfica.
(interrompe) Nós somos uma empresa auditada pelas maiores empresas internacionais. O que se pode fazer agora é auditar os auditores. Porque se as contas do Benfica são controladas pela CMVM, o que podem querer é auditar os auditores e a CMVM, e essa prática desconheço. 
De que forma é que a crise económica mundial influi nestes números negativos?
No ano passado continuamos a crescer e do ponto de vista de receitas da componente operacional crescemos 10%. Mas temos plena consciência de que o Benfica esta inserido num determinado conceito socioeconómico. Felizmente a maioria dos contratos que temos são de longa duração e as empresas têm estado satisfeitas e até agora nenhuma pediu qualquer tipo de renegociação de contrato. Do ponto de vista dos consumidores sentimos maior dificuldade das pessoas em pagar as quotas e os seus bilhetes, embora este jogo com o Barcelona tenha sido um dos cinco melhores jogos desde que o estádio foi inaugurado.
A SAD tem conseguido cumprir escrupulosamente as obrigações com todos os funcionários?
A SAD cumpre com todos os funcionários e nunca incumpriu, nestes nove anos, com nenhum jogador, nenhum treinador, nenhum funcionário, com parceiros financeiros ou fornecedores e nunca tivemos nenhum processo. Não há um único jogador que possa vir reclamar que p Benfica lhe ficou a dever alguma coisa.
Tem noção que essa é uma realidade pouco vista no futebol português?
Tenho noção, pois temos alguns dados relativos a outros clubes portugueses e sei que há clubes a passar dificuldades. É negativo para o sector.
Qual é o valor da marca Benfica actualmente?
Já vi estudos de 50 entidades distintas, desde superior a 100 milhões a outros que dizem que vale mais de 300 milhões. Mas tenho de reconhecer que não há sitio a que o Benfica se desloque onde não seja reconhecido, reconhecido e diria quase idolatrado. Não há nenhuma marca portuguesa que seja mais valiosa do que o Benfica.
Rui Rangel acusa a actual direcção de transformar o Benfica num entreposto de jogadores.
É verdade que hoje o Benfica tem uma política distinta daquela que era a politica relativa a jogadores há dez anos. O dr. Rui Rangel não saberá, mas uma parte significativa dos contratos que hoje existem são miúdos oriundos da nossa formação e estamos a falar de dezenas de contratos profissionais. Depois, não temos 95 jogadores, esse dado é falso.
Então quantos tem?
Não lhe vou precisar quantos são, mas é um número muito mais baixo do que esse. Uma parte significativa dos jogadores que temos são jogadores que estão emprestados, no sentido de serem valorizados e, temos vários exemplos de sucesso nesse campo como foi o caso de Fábio Coentrão. E, portanto, a política que existe é que esses jogadores são colocados no campeonato português ou no estrangeiro (como o Nelson Oliveira) e esses clubes pagam o salário do jogador na totalidade e ainda uma verba pelo empréstimo. Dentro de casa, entre equipa A, B e juniores temos 40 a 50 jogadores e os que estão emprestados não significam qualquer custo para o Benfica.
Em que mercados é que o Benfica está a apostar em termos de expansão?
Na expansão internacional a grande aposta é claramente na Lusofonia. Abrimos escolas em Angola em Moçambique, estivemos com futebol de formação em todos os PALOP e é aí que está o grande potencial de crescimento do Benfica. Dos 14 milhões de adeptos, grande parte está nestes países e tem tido um crescimento muito interessante. 
Termina esta época o contrato de patrocínio com a PT. Uma multinacional como a Emirates era o sponsor ideal?
A Emirates investe no futebol 180 milhões por ano e faz este investimento nos grandes clubes de cada país. Naturalmente que a Emirates seria um parceiro comercial interessante.
A PT patrocina igualmente FC Porto e Sporting. Isso é prejudicial?
Não conheço os números de FC Porto e Sporting, mas tenho uma pequena ideia por aquilo que se ouve no mercado. Lembro que o estudo da Liga, que é isento, diz que a quantidade dos adeptos do Benfica em Portugal é igual a soma de adeptos de FC Porto e Sporting. 
Por que é que ainda não se fechou o negocio do naming do estádio?
Porque ainda não conseguimos encontrar o parceiro certo, quer do ponto de vista financeiro quer da marca. Hoje em dia, com esta crise mundial, não é em Portugal que vamos encontrar um parceiro para o naming do estádio nem penso que este dossier se possa fechar a curto prazo. 
O Benfica está presente em reuniões com os grandes clubes da Europa através da ECA (European Club Association). O que é que se discute aí?
Estou na componente de "marketing e comunication" e temos como objectivo encontrar dados para a indústria se continuar a desenvolver. É uma associação e clubes, mas não é por isso que não trabalha com a UEFA.
Este grupo tem mais força que o G14?
Tem maior abrangência e creio que mais força também. É ali que se encontram os grandes decisores dos clubes como Sandro Rosell (Barcelona), David Gill (Man. United) ou Jean-Michel Aulas (Lyon). É ali que nos encontramos e abrimos portas para futuros negócios.

O presidente admitiu recentemente baixar o valor das quotas, tendo em conta a recessão que atravessa o país. Esta medida será uma realidade em breve?
Esse assunto não foi ainda tratado como tal dentro de uma reunião de direcção, porque é a direcção que tem poderes para isso. Como lhe disse, com esta crise fizemos uma analise e o Benfica, como toda a sociedade, vai ter de se adaptar às novas regras do jogo, já que as pessoas têm menos dinheiro, as empresas menos capacidade de financiamento. Queremos ter o maior número de sócios e queremos continuar a ter o estádio com afluências significativas. Para isso vamos ter de baixar pregos e reduzir custos para manter o equilíbrio.
As receitas de quotização e bilheteira têm vindo a baixar?
Não, até agora não, e isso tem sido uma das boas surpresas. Mas teremos de ver o impacto a partir de Janeiro, altura em que a maioria dos sócios como eu paga a quota anual. 
O objectivo dos 300 mil sócios ainda é concretizável?
Chegaremos aos 300 mil sócios, não sei exactamente quando. Há um ano e meio tive um filho que fiz sócio desde o dia que nasceu e era o 237 mil e qualquer coisa, portanto em determinado momento haverá o sócio 300 mil. Aquilo que será a nossa luta quando chegar a essa altura, é que exista a capacidade de os sócios honrarem os compromissos de quotização.

«Direitos televisivos serão decididos até final do ano»
Estamos a meses do final do contrato com a Olivedesportos para os direitos televisivos. O Benfica já decidiu o que vai fazer?
Não houve nenhuma evolução. Recebemos uma proposta, tornamo-la pública e não aceitámos por várias razões. Existem alternativas identificadas, mas não há decisões tomadas e não seria sensato tomar essa decisão antes das eleições.
Mas para quando uma decisão?
Não quero antecipar datas, até final do ano teremos de ter decisões.
Há quem pague mais que a Olivedesportos?
Sem revelar muito nos tivemos um acordo com o engenheiro Paes do Amaral em relação a uma suposta proposta que ele iria fazer e acabou por não fazer. E não existem em Portugal entidades disponíveis para apresentar um programa concorrente à Sport TV, até porque os únicos direitos televisivos que estão disponíveis de imediato, entre clubes da I Liga, são os direitos do Benfica. Se quisermos avançar para uma alternativa ou conseguimos arranjar um parceiro internacional e ainda assim a Olivedesportos terá sempre um direito de preferência para exercer, ou, como já foi falado, exploramos os direitos dentro da própria Benfica TV. A não ser que a Liga arranje outra solução, entretanto.
Portanto bastará a Olivedesportos igualar o valor?
A Olivedesportos tem direito de preferência, são condições negociadas em 2002 e que eram as condições possíveis na altura e vale a pena elucidar esse tema. Fui dos primeiros a denunciar que o valor que o Benfica recebia era extremamente baixo sem paralelo em termos internacionais. Questionei-me porque é que este acordo tinha sido assumido em 2003 mas como toda a gente sabe o contrato foi rasgado nos tempos de Vale e Azevedo, o que originou um enorme imbróglio jurídico. As pessoas que estiveram por detrás do rasgar de contrato com a Olivedesportos, na altura, deveriam pensar que isso terá custado qualquer coisa como 70 milhões de receitas que o Benfica não foi buscar, e isto tem implicações no passivo. Ouvir agora algumas pessoas que estiveram associadas a Vale e Azevedo virem falar do passivos... As pessoas deviam ter mais decoro na forma como abordam o assunto.
A maioria dos clubes europeus recebe mais de 40% do total das receitas. É possível lá chegar?
Os clubes recebem em média, 40% e o Benfica gera receitas internacionais, sem direitos televisivos, de mais de 100 milhões, portanto estaríamos a falar de um valor superior a 40 milhões.
Mas admite fechar contrato abaixo dos 40 milhões?
Nós não temos nenhuma proposta em cima da mesa. Ou essa proposta aparecerá, ou se não aparecer a alternativa é a Benfica TV.
Não acha que a renovação do contrato com a Olivedesportos iria criar mal-estar junto dos sócios? Até actuais dirigentes já se manifestaram contra.
Existem duas questões diferentes. Uma é corporativa e trata-se de uma relação que tem corrido bem com a Olivedesportos, outra é a percepção que os sócios têm em relação ao papel desempenhado pela Olivedesportos. E basta ver aquilo que é dito nas assembleias gerais onde este assunto é sempre posto em cima da mesa. Não é possível tomar uma decisão sem ter isso em consideração. Se isso nos condiciona numa eventual negociação? Não vou tão longe.
Os resultados da Benfica TV estão a corresponder às expectativas?
Estão. Sabíamos que tínhamos o problema de não ter os jogos em directo o que havia muito em termos de share. Dou-lhe um exemplo: o jogo que fizemos no Algarve, com o Betis, teve um share altíssimo, de 17 ou 18%.
Por que é que a Benfica TV não faz a cobertura das eleições?
Tomámos essa decisão em 2009 e não temos os meios de um canal generalista para fazer a cobertura total. O dr. Rui Rangel declarou que é mau sinal a Benfica TV não ter estado no lançamento da sua candidatura, mas também não esteve na de Luís Filipe Vieira. Queremos continuar de forma isenta.

«Nunca recebi um dragão de ouro»
Uma das críticas que lhe fazem frequentemente é o facto de não ser benfiquista. É verdade que torcia pelo Sporting?
Sempre defendi o Benfica com a mesma tenacidade que qualquer benfiquista defende. Estou de consciência tranquila. É interessante ouvir críticas de pessoas que se dizem benfiquistas. Eu nunca recebi um dragão de ouro, nunca fui presidente de uma casa do FC Porto no Luxemburgo, nunca fui condenado por processos fiscais a favor do Sporting e nunca tive qualquer processo por fraude fiscal. Portanto, ouvir algumas pessoas a falar de benfiquismo quando se tem por perto pessoas assim...

«Encontro muitos adeptos na rua e ninguém me diz que estou a fazer um mau trabalho ou sou lagarto (...)»
Mas essa é das maiores críticas que lhe fazem...
(interrompe) As pessoas que hoje me criticam são as mesmas pessoas que me contrataram, sabendo quais eras as minhas características profissionais e pessoais. Isso é pura demagogia. O meu trabalho avalia-se por quem cá está. Nestes nove anos, fui a mais jogos do Benfica do que essas pessoas e tenho números de quantas vezes eles vieram ao estádio. Encontro muitos adeptos na rua, convivo com eles e ninguém me diz que estou a fazer mau trabalho ou sou lagarto, sportinguista, ou qualquer outra coisa.
Acha que o cargo de presidente deveria ser remunerado?
Isso é uma questão quase pessoal. O presidente defende uma linha dura que, reconheço, é cada vez menos frequente no plano internacional.
E no plano nacional também.
Sim, também, mas não comparo o Benfica com nenhum clube nacional. O presidente do FC Porto é remunerado, o do Sporting não é mas desde José Eduardo Bettencourt que pode ser. O presidente sempre entendeu que quem está nos órgãos sociais não deve ser remunerado, porque está ao serviço do Benfica. Já nem falo do presidente que passa aqui 12 a 15 horas por dia, mas de outros como o Rui Gomes da Silva, que prejudica a vida pessoal e profissional pelo Benfica. Não me canso de elogiar estes orgãos sociais que se mantiveram coesos até ao fim e respeito a 100% a vontade do presidente e dos sócios.

«Realizamos encaixes e o jogador fica aqui»
O Benfica Stars Fund tem tido os resultados esperados?
Fazemos vendas de parte do passe dos jogadores, mas temos 15% do fundo. As operações já realizadas trouxeram resultados muito interessantes, a maioria com resultados positivos e dois ou três em linha com o que estava perspectivado. Vamos ver agora o que acontece aos outros jogadores que estão no fundo. Conseguimos encontrar uma solução inovadora em que vendemos pequenas percentagens, o que nos permite realizar encaixes e o jogador ainda fica aqui.
O valor das acções do Benfica estão muito abaixo do preço de lançamento. Faz sentido continuar na Bolsa?
É uma pergunta difícil, porque qualquer resposta que lhe desse teria de a justificar perante a CMVM, mas posso dizer-lhe que não temos qualquer intenção de retirar a Benfica SAD da Bolsa. É verdade que quem investiu 5 euros e vê hoje as acções a 50/60 cêntimos sente que é um rombo significativo, mas quem investiu na SAD não procurou dividendos, agiu mais numa perspectiva emocional. Haverá excepções como o caso do presidente e do sr. José Guilherme, porque naquela altura era fundamental investir para salvar o Benfica.

«Se não valesse a pena Jesus já não estaria cá»
O Benfica vendeu Javi Garcia e Witsel em cima do fecho do mercado. Estava obrigado a realizar receitas extraordinarias?
Nós teríamos sempre de encontrar, para este ano, formas de financiamento. Desenvolvemos um modelo diferente em que é fundamental que a equipa seja extremamente competitiva e para isto é preciso ter os melhores jogadores e isso não se faz retendo-os aqui dentro. Neste caso não era essencial vender os dois jogadores, pois tínhamos financiamento alternativo. Se do ponto de vista desportivo nos coloca um desafio, do ponto de vista financeiro deixa-nos com uma margem muito boa para 2012 e 2013.

«Há que deixar de ser hipócritas. O Benfica não pode recusar ofertas de 20, 30, ou 40 milhões»
«Daqui a 2/3 anos, haverá qualidade vinda da formação que nos levará a investir menos no mercado»
Não era possível antecipar estas vendas e garantir substitutos à altura em tempo útil?
Já vi vários treinadores dizerem que a partir do momento em que aparece uma proposta entre 20 a 30 milhões, os clubes portugueses não devem hesitar em vender. E o futebol é o momento e já houve situações em que tivemos oportunidades para vender e não vendemos, e quando apareceu uma nova proposta o jogador foi vendido por um valor mais baixo. Em termos internacionais, os clubes vão ter menos capacidade de investimento mas quando nos aparece uma proposta de 20, 30 ou 40 milhões há que deixar de ser hipócritas e dizer que o Benfica, e até o país, não se pode dar ao luxo de recusar este dinheiro. As duas situações, quer do Javi quer do Witsel, são diferentes. Para o Javi havia a percepção que podia chegar uma proposta e da parte da equipa técnica sempre houve uma mensagem de confiança em relação às alternativas que existiam. O caso do Witsel foi diferente, foi uma situação de última hora que não esperávamos, mas há que reconhecer que Jorge Jesus, quando confrontado com a situação, sempre disse que arranjaria soluções. 
Os adeptos devem estar preparados para mais vendas em Janeiro?
Não creio, ainda não chegamos la, mas não precisamos de vender em Janeiro. Nessa altura acontecem apenas alguns ajustes pontuais de compras e vendas.
Mas há excepções como o caso de David Luiz, vendido em Janeiro.
Sim, mas esse é daqueles exemplos em que lhe posso dizer que perdemos a oportunidade de vender no momento certo e Janeiro não foi o momento certo. O David revelava vontade em sair e naqueles seis meses todos percebemos que tínhamos perdido o momento certo de vender.
A curto prazo o Benfica poderá voltar a fazer investimentos superiores a 30 milhões em jogadores?
Nós temos investido todos os anos verbas significativas, e esse investimento dividiu-se numa primeira fase em infraestruturas e numa segunda fase em atletas, e aí foi feito o grosso do investimento, e que não nos arrependemos. Todos os jogadores que estão a chegar do futebol de formação dão-nos garantias de poderem estar na equipa principal dentro de muito pouco tempo. As pessoas queixam-se muito de que não termos portugueses na equipa principal, mas têm de entender que este processo demora anos. Se nos lembrarmos da decisão de Vale e Azevedo em acabar com o futebol de formação, não era, de certeza, em 2003 ou 2004 que iriam surgir putos e alguns dos miúdos que estão a aparecer hoje na equipa B estão connosco há 10 anos. Isso é primeiro factor positivo: haver qualidade que nos permite pensar que dentro de 2/3 anos, com estes bons resultados, vamos ter menor necessidade de investimento. Temos também feito um excelente trabalho na prospecção liderado pelo Rui Costa, que considero ser das pessoas que mais percebe de futebol em Portugal.
Existe um tecto salarial estipulado para o plantel profissional?
Não, não existe nenhum tecto salarial. Aquilo que temos são escalões, com excepção dos jogadores que vêm da formação que têm (...) por onde podem evoluir, mas não creio que haja dois jogadores dentro do Benfica que tenham salários iguais. No entanto, é diferente comprar um jogador por 10 milhões e trazer outro a custo zero. Se o trago por 10 milhões com um contrato de cinco anos, a capacidade é limitada mas se ele vem a zero tenho mais capacidade de lhe pagar determinado salário durante os anos de contrato. Não defendo tectos salariais, o tecto principal é o da razoabilidade. 
O Benfica tem vindo a descer a massa salarial?
Não, a massa salarial tem crescido muito por força de factores variáveis que são introduzidos, um que têm a ver com aquilo que se passa a nível nacional, outros com o que se passa a nível internacional. O facto de os jogadores terem conseguido chegar aos quartos-de-final da Champions fez com que se subisse ligeiramente a massa salarial. 
Jorge Jesus é um dos treinadores mais bem pagos de sempre do futebol português. É um esforço financeiro que tem valido a pena?
Se não valesse a pena, Jorge Jesus já não estaria cá e está há quatro anos connosco. Não sou a pessoa mais indicada para elencar todos os méritos de Jorge Jesus, mas tudo o que conseguimos nestes três anos quer ao nível de de títulos, quer do ponto de vista de performance desportiva, quer da valorização de jogadores, merecia que alguém escrevesse a história de Jorge Jesus. É um elemento determinante na estrutura do futebol, que tem também António Carraça, Rui Costa e o presidente.
Hoje em dia para para ser treinador do Benfica a capacidade de potenciar jogadores é tão importante como a conquista de títulos?
Nós trabalhamos para os adeptos, nunca podemos esquecer para quem trabalhamos. Toda a estrutura trabalha para o sucesso desportivo. É muito interessante sermos o maior clube do Mundo, termos resultados financeiros positivos, museu, infraestruturas, mas na realidade a essência do Benfica é ganhar títulos. Portanto, tudo o que é feito nesta casa tem como ponto de referência a conquista de títulos. Já tivemos anos com 30 milhões de euros de prejuízo e as pessoas estavam contentes porque ganhámos o campeonato e outras com lucro em que as pessoas estavam claramente descontentes porque não ganhámos.

PERFIL
Nome: DOMINGOS Cunha Mota SOARES de OLIVEIRA
Nascido em Lisboa, a 4 de junho de 1960 (52 anos). Casado, 4 filhos
Licenciado em Informática e Gestão pela Universidade Paris XI em 1983
Advanced Management Program pelo Insead em 1998

1993-1984
- Analista-programador da Union Française des Banques – Locabail, em Paris

1984-1988
- Director de Organização e Informática da Locapor

1988-1992
- Director-geral da Unisoft

1992-1996
- Administrador delegado da Geslógica

1997-2000
- Country manager para Portugal da Cap Gemini
- Administrador Delegado da Cap Gemini Portugal

2000-2001
- Country Manager para Portugal na nova empresa Cap Gemini Ernst & Young
- Administrador delegado da Cap Gemini Ernst & Young Portugal

2001-2003
- CEO da Cap Gemini Ernst & Young Ibéria
- Presidente e consejero delegado da Cap Gemini Ernst & Young España
- Presidente não executivo da Cap Gemini Ernst & Young Portugal
- Administrador não executivo da Sogeti España

- Maio de 2004 até à data
- Presidente da comissão executiva do Grupo Benfica
- Administrador das seguintes empresas:
- Benfica Futebol SAD
- Benfica Estádio
- Benfica Multimédia
- Benfica SGPS
- Benfica Comercial
- Benfica Seguros
- Clínica do Benfica
- Benfica TV
- É responsável pelas seguintes áreas do Grupo Benfica
- Direcção Comercial & Marketing
- Direcção Financeira
- Futebol Formação
- Direcção Técnica e de Sistemas de Informação
- Benfica Multimédia
- Benfica TV
- Direcção de Recursos Humanos
- Organização de jogos
- Segurança"