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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Entrevistas (VII)

- Entrevistas concedidas ao Diário Económico  em Outubro de 2009

Pedro Sousa Carvalho e Sandra Almeida Simões

Em entrevista ao Diário Económico, o presidente do Benfica fala sobre o treinador, a venda de jogadores e as acções em bolsa.

O presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, e o administrador da SAD, Domingos Soares de Oliveira, estiveram duas horas à conversa com o Diário Económico. Contas, futebol, jogadores, novo fundo, bolsa e o futuro do clube foram os grandes temas abordados ao longo da entrevista.





O Benfica ultrapassou a meta dos 200 mil sócios. Qual é agora o objectivo e em quanto tempo pretendem alcançá-lo?
Luís Filipe Vieira: A estratégia utilizada, desde que chegámos a esta casa, está focada nos sócios do Sport Lisboa e Benfica. Pensamos que iremos conseguir cumprir o novo objectivo que é atingir os 300 mil sócios.

Tem algum objectivo definido em termos de ‘timing' para atingir os 300 mil sócios?
LFV: Não tenho uma meta temporal, apenas o objectivo final. Confesso que tinha uma determinada expectativa que não foi cumprida. Gostaria de estar já a celebrar os 300 mil, mas fui demasiado ambicioso. Agora, alcançámos os 200 mil sócios, o que não deixa de ser notável. Não em seis ou sete meses. Sinceramente não sei em quanto tempo, mas da forma como a equipa se está a aproximar dos sócios chegaremos lá em breve.

Destes 200 mil sócios, quantos são pagantes?
LFV: Mais de 60% têm débito directo. E fomos o último clube a fazer uma remuneração de todo o universo de sócios. Foi em 2005. Isso significa que todos aqueles que já não reuniam as condições foram "limpos" da base de dados.

Como estão as negociações para o ‘naming' do estádio? 
Domingos Soares de Oliveira: Continuamos em negociações. Ainda não está fechado o processo. Este é talvez o projecto mais difícil em termos de venda.

Difícil porquê? 
DSO: Difícil porque é um valor elevado, embora não seja mais caro do que as camisolas. Enquanto o patrocinador das camisolas tem uma visibilidade diária, o patrocinador do estádio não tem essa mesma visibilidade. Continuamos com propostas activas e acreditamos que, a curto/médio prazo, vai ser possível fechar esse patrocínio.

E estamos a falar de empresas nacionais que já apresentaram propostas?
DSO: Estamos mais a falar de empresas internacionais, do que nacionais. Sim, já apresentaram propostas. Para uma empresa internacional, a sua associação ao Benfica é muito forte. O melhor exemplo é o caso da Repsol. A frota de clientes/sócios do Benfica é hoje o primeiro, ou o segundo, melhor cliente da Repsol.

E quais são as grandes prioridades para este mandato?
LFV: A herança que recebemos foi muito pesada. Ainda hoje temos de responder por erros e irresponsabilidades de um determinado período da nossa história. Durante a campanha eleitoral, assumi que a prioridade seria a vertente desportiva. Queremos deixar o museu concluído e fazer a revisão de estatutos.

A casa está arrumada?
LFV: Sim, a casa hoje já está arrumada. O que nos tem faltado são os resultados desportivos, sobretudo porque tínhamos outras prioridades.

Está de tal forma apetecível, que receia uma nova Oferta Pública de Aquisição?
LFV: Não, não receio. O maior accionista da SAD Benfiquista vai ser sempre o clube. Esse perigo não existe.

Noutras SAD, o presidente é bem remunerado. No Benfica, o presidente não é pago. Qual é a lógica?
DSO: Nenhum dos Órgãos Sociais eleitos pelos sócios é remunerado. É a lógica de quem serve o Benfica, serve com espírito de missão e não de qualquer remuneração. E não creio que haja intenção de alterar essa situação.

As goleadas já estão a reflectir-se nas receitas de bilheteira?
LFV: As receitas de bilheteira são compostas por duas vertentes. Aquilo que são as receitas dos bilhetes de época, cativos e camarotes cresceu face aos últimos anos. E depois temos uma segunda vertente de jogo a jogo que, tipicamente, é mais comprado por adepto do que por sócio. Nesta vertente, estamos com o triplo da facturação, em relação ao ano passado. No campeonato nacional e nas competições europeias estamos com o volume de receitas 30% acima do valor do ano passado.

Os resultados de amanhã vão ser elucidativos da ausência de venda de jogadores?
LFV: Os resultados vão reflectir a estratégia. Para além disso, se uma liga dos Campeões vale cerca de 15 milhões de euros... é uma questão de fazer contas. Mas repito, sabemos exactamente o terreno que estamos a pisar. A conta de resultados será influenciada de forma significativa mas, do ponto de vista financeiro, temos a capacidade para aguentar esse impacto de não vender jogadores. Toda a gente reconhece que os activos, os jogadores, valem muitíssimo mais hoje do que valiam há um ano atrás.

Durante dois anos?
LFV: Durante dois, se for necessário. Se isso é algo que queremos manter ‘ad eternum', depende também do que queremos fazer em termos de investimento. Hoje temos o melhor plantel dos últimos anos.

Quando vão dar lucros?
DSO: Evidentemente que não vamos dar prejuízos ‘ad eternum'. Acreditamos que conseguiremos voltar aos lucros e ter os capitais recompostos no espaço de três ou quatro anos.

Quando conseguirão ter os capitais próprios repostos?
LFV: A meta definida é o ano de 2013. E este projecto desportivo tem de ser sustentado ao longo dos próximos três a quatro anos. Se conseguirmos renegociar os contratos, colocamos o Benfica num patamar completamente diferente.

A crise financeira também teve impacto no Benfica?
LFV: Teve impacto no Benfica, como em todo o lado. Mas apesar de tudo não nos podemos queixar muito. Como em qualquer outra empresa, tivemos maior dificuldade de acesso ao crédito. Posteriormente, reflectiu-se também no aumento dos ‘spreads'. Já do ponto de vista de receitas, não sentimos impacto. Assinámos contratos, que melhoraram os valores que vinham do passado. O potencial de valorização da marca Benfica foi positivo.


Pedro Sousa Carvalho e Sandra Almeida Simões 

O Benfica retirou jogadores do Stars Fund por considerar que o fundo foi subavaliado. 

Não se deve comprar acções dos clubes desportivos à espera da valorização ou dos dividendos. É o conselho de quem gere a SAD mais valiosa da bolsa.

Recentemente lançaram o Benfica Stars Fund. Quem são os subscritores?
Luís Filipe Vieira: Não temos conhecimento dos subscritores. Não escondemos que apresentámos as características aos principais parceiros, não só os financeiros, mas também às empresas que trabalham muito com o Benfica.

O Benfica quanto subscreveu?
Domingos Soares de Oliveira: Nós subscrevemos seis milhões. Somos os principais interessados no êxito do fundo.

Qual é a lógica de vocês próprios investirem num fundo que estão a usar para melhorar as receitas?
DSO: É uma lógica de compromisso perante os restantes parceiros. O êxito do fundo será o êxito da Benfica SAD. Estamos perfeitamente convencidos que os jogadores que estão no fundo têm um potencial de valorização. É nosso interesse que as vendas se concretizem.

Consideram o lançamento do fundo um sucesso?
LFV: Sem dúvida. O nosso objectivo era colocar os 40 milhões de unidades de participação. Era determinante que esse fundo estivesse sediado em Portugal, sob a supervisão da CMVM, independentemente dos nossos problemas ou dos problemas das SAD com o regulador. Mas também sabíamos que seria um processo extremamente complexo de aprovação.

Foram feitas sugestões por parte da CMVM?
DSO: Foi pedido um conjunto de alterações, todas acatadas.

O montante vai para onde?
DSO: Esse ‘cash' que de alguma forma cativámos serve para reduzir passivo e para ajudar o Benfica a criar condições para continuar os investimentos.

Faz sentido pensar noutro instrumento que esteja disponível para institucionais e para adeptos ou sócios?
DSO: Chegámos a estudar, já há algum tempo e em conjunto com um dos nossos parceiros, a possibilidade de fazer um fundo aberto aos adeptos. A mecânica é diferente porque implica que o produto esteja disponível aos balcões dos bancos. Pode ser feito, mas neste momento não está a ser equacionado.

O que é que garante que este Fundo vai ser rentável?
LFV: Actualmente, sete ou oito jogadores do clube são dos mais assediados na Europa. Alguns estão no fundo, outros não.

Quem faz a avaliação dos jogadores no Fundo?
DSO: Nós avaliámos os jogadores e determinámos as percentagens. Houve uma negociação com os avaliadores independentes. Não concordaram com a maioria das avaliações. Como o Benfica entendeu que a avaliação de alguns jogadores era baixa, retiram-se vários jogadores do Fundo. O valor é mais de compra do que de venda.

O Benfica foi pioneiro na criação do fundo e criticado, por exemplo, pelo Sporting, que entretanto também pondera lançar um. São indiferentes à crítica?
LFV: Aceitamos a crítica construtiva, ignoramos a crítica ressabiada. Quanto a esta, há uma indiferença total. Ficamos muito felizes que venham atrás de nós. Em relação ao Fundo, acredito que, obrigatoriamente, vão seguir esse caminho. Do ponto de vista financeiro, também inovámos nos patrocínios. Em alguns casos foram mesmo pressionar os patrocinadores que estavam com o Benfica.

Qualquer uma das SAD tem uma liquidez residual. Faz sentido continuar cotadas em bolsa?
DSO: Do ponto de vista técnico, faz. Porque uma entidade que emita papel comercial ou um empréstimo obrigacionista, tem de estar sob a supervisão da CMVM. Do ponto de vista dos investidores, sentimos que os accionistas têm acções por uma questão emotiva, de ligação ao clube e paixão, mais do que para ganhar dividendos ou encaixar com a valorização dos papéis.

O Benfica estreou-se na bolsa a cinco euros. Agora estão a cerca de três euros. É possível recuperar o valor inicial?
DSO: Nós não conseguimos responder a essa questão. Passados uns meses da estreia, publicámos os melhores resultados de sempre de uma SAD, lucros de cerca de 20 milhões e o preço da acção não mexeu. Portanto, a questão passa por aquilo que será preciso fazer para a acção regressar aos cinco euros.

Mas acha que não há muita lógica no sobe e desce das acções?
DSO: Muito honestamente, não há lógica. É um investimento mais emocional.

O presidente tem uma participação no capital. Não costuma comprar, nem vender acções?
LFV: Não compro, nem vendo. A posição está lá parqueada. É o que tenho e já não é tão pouco quanto isso. Comprei para preencher um determinado capital necessário, não com a ideia de fazer mais-valias. Aliás, comprei as acções a cinco euros e hoje estão bastante abaixo disso.



Pedro Sousa Carvalho e Sandra Almeida Simões 

Luís Filipe Vieira quer ganhar o campeonato, a Taça e chegar aos quartos-de-final da UEFA. 

O treinador do Benfica está de pedra e cal, quem o garante é o presidente do clube, Luís Filipe Vieira. Nem o facto de Jorge Jesus estar a aprender inglês preocupa o presidente que diz que o futebol no Benfica ainda não atingiu o máximo.

Quais são os objectivos desportivos para esta época?
Foram definidos em reunião de quadros do Benfica. Na equipa principal, queremos ganhar o campeonato nacional, conquistar a Taça de Portugal e chegar aos quartos-de-final da UEFA. No futebol de formação e nas modalidades queremos ganhar os dois campeonatos.

Jorge Jesus foi contratado por dois anos e mais um de opção. Tendo em conta o arranque da época, antecipa a prorrogação do vínculo na terceira época?
Acabámos agora de fazer um contrato com ele. Temos um longo caminho a percorrer. Não há necessidade de, neste momento, estar a pensar nisso.

Ainda é cedo para falar em renovação de contrato?
É cedo para nós e para ele. Logicamente estamos muito satisfeitos. Penso que foi a opção certa para o Sport Lisboa e Benfica.

Pelo menos, o vínculo da terceira época será accionado?
Não tenho dúvidas que será treinador do Benfica por muitos anos. A sua ambição representa a nossa ambição e a sua dedicação e competência são reconhecidos por todos, portanto, as condições para ele fazer um percurso de longa distância nesta casa estão reunidas. Nós temos um mandato de três anos e pelo menos nesses ele estará aqui.

Preocupa-o que o treinador Jorge Jesus esteja a aprender outra língua?
Não, não me preocupa minimamente. Conheço bem o Jorge Jesus. Sei a relação que temos com ele. E estou muito descansado. O inglês é um factor de valorização e não necessariamente de exportação. Hoje comanda muitos jogadores sul-americanos, o espanhol é fácil de entender e falar mas, no futuro, podemos ter jogadores ingleses.

Se for campeão, acha que consegue segurar o treinador no Benfica? 
Já disse que Jorge Jesus ficará no Benfica por muitos e bons anos.

É possível manter este tipo de registo, de grandes goleadas, por muito mais tempo?
O que o nosso treinador nos transmite é que ainda não atingimos o máximo. Ainda estamos longe de atingir o máximo e, tal como ele diz, ganhar por um ou por seis garante na mesma apenas três pontos. Mas se pudermos ganhar por seis é melhor! Mas é importante avisar que haverá momentos em que vamos encontrar maiores dificuldades e não poderemos baixar o apoio à equipa.

Rui Costa pode tornar-se num bom presidente do Benfica?
Neste momento, o Rui Costa tem uma missão a cumprir e o futuro é sempre um espaço em aberto. O Rui terá de decidir se um dia quererá ser presidente do Benfica. O projecto que tem entre mãos é ser director desportivo do Sport Lisboa e Benfica e administrador da SAD. Nesta altura, está rodeado por um grupo de excelentes profissionais com quem está a aprender muitas coisas. Está a crescer. Depois, dentro de alguns anos, é uma opção que terá de ser ele a tomar.

A arbitragem é sempre um assunto polémico...
Já disse tudo o que tinha para dizer em matéria de arbitragem. Decidimos que esta época não falaríamos de arbitragem e é uma postura que pretendo manter.

Casos como o Apito Dourado mancham a imagem do futebol nacional?
É evidente que não o valorizam. Mas não é um caso exclusivo do futebol português. O que é necessário é garantir que o que sucedeu no passado - creio que hoje ninguém tem dúvidas do que sucedeu, apesar de algumas decisões judiciais - não se repita. Mas não quero voltar a esse dossier.

O Benfica é o segundo clube que mais paga em termos de salários e prémios. Como descreve a política salarial do clube?
No próximo exercício a política salarial deve ficar estável, mas no exercício de 2008/2009, face ao exercício 2007/2008, subiu, sobretudo, por força da rescisão da anterior equipa técnica.

Em relação ao Nuno Gomes, já tem um papel definido para o futuro dele no Benfica?
O Benfica tem uma ligação contratual com o Nuno Gomes. São mais dois anos de contrato. Depois, não sei o que vai suceder. Agora há uma coisa que podemos garantir: qualquer jogador que seja quadro do Benfica não pode pensar que quando acabar o contrato vai ficar dentro do SLB. É verdade que o Nuno Gomes é uma figura do SLB, mas na altura própria logo vamos pensar nisso. Não vale a pena antecipar cenários.

Qual é o racional de manter Mantorras no plantel? É uma estratégia de ‘marketing'?
Não é uma estratégia de ‘marketing'. Ele próprio já assumiu comigo que não vestirá mais nenhuma camisola sem ser a do Benfica. Vai terminar a sua carreira no Benfica. Tem um contrato com o Benfica. Vamos respeitar esse contrato.


Pedro Sousa Carvalho e Sandra Almeida Simões 

Segundo as contas da SAD, basta vender seis jogadores para cobrir todo o passivo bancário. 

Luís Filipe Vieira garante que o Benfica "não está vendedor, mas comprador", mas ainda assim admite a venda de um jogador. Quanto ao negócio, revela ainda que a incorporação do Estádio na SAD será apresentada na próxima assembleia-geral, marcada para 19 de Novembro.

O investimento é uma estratégia assumida esta época?
LFV: Esta época e a anterior. Desde que o entrei na SAD em 2001 foi tomada uma primeira opção estratégica que condicionou todas as outras, a construção do Estádio. Digo que condiciona todas as outras, porque custou - com todas as infra-estruturas adjacentes - 160 milhões de euros e obviamente que a vida do Benfica do ponto de vista financeiro passou ser regulada pelo cumprimento do Project Finance associado.

Ainda é possível melhorar os patrocínios?
DSO: É. Falta vender o ‘naming' do Estádio, que pode ser complementado com a melhoria do patrocínio das camisolas, das bancadas e dos pavilhões. As receitas de quotização estão a subir. Passar de 200 mil para 300 mil sócios, na prática significa cerca de sete milhões de euros.

Estão disponíveis para investir mais?
LFV: Ainda estamos disponíveis para investir mais nesta equipa em termos de jogadores, essa é uma garantia que posso deixar. Os investimentos começaram mais estruturadamente em 2008 e continuaremos até 2010.

Consideram que de alguma forma estão a hipotecar ou a diminuir a margem de manobra da próxima direcção?
LFV: Pelo contrário. Quando chegámos a esta casa já estava tudo hipotecado. Agora, há um futuro e risonho. Para terem uma ordem de grandeza, imaginem que queríamos cobrir o passivo bancário. Garanto que bastava vender seis jogadores e cobríamos o passivo bancário.

É difícil não cair em tentação?
LFV: De facto as propostas são tantas que vamos ter de saber resistir, porque o nosso objectivo passa por ganhar o campeonato e isso só se consegue mantendo os nossos activos, mas admito que iremos vender um jogador. Vou-lhe dar apenas um exemplo de valorização - e não estou a dizer que o vamos vender - o caso de Di Maria, que está avaliado em 22 milhões de euros no Fundo. E ainda ontem soubemos quanto vale Di Maria no mercado e posso garantir que vale muito mais.

É uma gestão financeira que se consegue mesmo sem ir à liga dos campeões?
DSO: O nosso plano prevê que o Benfica eventualmente não vá à Liga dos Campeões todos os anos, mas tem todas as condições para estar regularmente na Liga dos Campeões. O plano aguenta isso. Agora pode colocar-se a questão ao contrário: será que todos os planos de todas as sociedades aguentam não ir, eventualmente, um ou outro ano à Liga dos Campeões?

Para quando a incorporação do estádio na SAD?
DSO: A intenção é apresentar essa operação aos sócios e accionistas das duas instituições entre Novembro e Dezembro.

Em 2013 terão outro tipo de receitas?
DSO: Sim, relacionadas com os direitos televisivos. Daqui até lá, teremos de pontualmente procurar as melhores soluções. A solução da venda de jogadores é uma possibilidade. Os contratos que vão terminar nessa altura, como o das camisolas, a Adidas, a própria situação do contrato do nosso canal, serão alvo de negociação, não será global, mas faseada. Tudo isso será alvo de uma negociação que será desenvolvida neste mandato. 

Entrevistas (V)


Sábado, 2 de Janeiro de 2010

Entrevista de Luís Filipe Vieira ao jornal A Bola



Que agenda foi estabelecida para o Benfica a pensar nos desafios propostos pelo ano de 2010 que está a começar?

— A agenda normal de um Clube moderno em que o futebol ocupa lugar de destaque mas em que as responsabilidades vão muito para além do futebol. Conseguimos recuperar em apenas nove anos todo o atraso a nível de infra-estruturas e, ao mesmo tempo, credibilizámos o Clube, portanto, agora temos que fazer a gestão corrente, acompanhar a realidade nacional e internacional, provocar as rupturas que se revelaram necessárias aos interesses do Benfica. Costumo dizer que o Benfica voltou a ter futuro, em contraste com aquilo que encontrámos quando aqui cheguei. Nesta altura, queremos juntar ao património os resultados desportivos, quer seja no futebol, nas modalidades ou na formação. É nisto que estou concentrado e empenhado.

— Vamos assistir a alterações de fundo em matérias tão relevantes como o naming do estádio, renegociações com a Sagres ou a Adidas, a entrada da Benfica TV na plataforma ZON ou a venda dos direitos televisivos?

— Tudo tem o seu tempo e garantidamente, como pode calcular, são matérias que obrigam a reserva e seguramente a muita negociação. O que posso garantir, como de resto tenho feito até aqui, é que vamos assumir até ao fim os compromissos que assinámos, mas é evidente que em cada uma das matérias que indicou na pergunta iremos bater-nos por defender ao máximo os interesses do Benfica. A verdade é que conseguindo negociar ou renegociar todos os contratos que referiu, vamos colocar o Benfica num patamar completamente diferente!

— Já foi dito em diversas ocasiões que o Benfica está a receber muito menos em direitos televisivos do que aquilo que virá a auferir num futuro próximo, concorda?

— Todos sabem que os nossos jogos lideram largamente as audiências, mas também é verdade que temos um contrato assinado que iremos respeitar. No entanto, existe a expectativa sustentada de vir a melhorar substancialmente os valores do presente contrato! Neste momento o que importa dizer e reter é que temos um contrato que vamos respeitar.

— Mas, e deixando os direitos televisivos de fora, acredita que ainda é possível optimizar o actual nível de receitas?

-- Sem dúvida, já falou por exemplo de algo que ainda falta explorar, o naming do estádio. Depois, estou convencido que podemos melhorar, com uma boa margem, o valor de alguns patrocínios. Finalmente, deixando de fora os direitos televisivos, ainda temos os nossos jogadores. Todos reconhecem que eles valem muitíssimo mais hoje do que valiam há seis meses atrás. Portanto, por tudo isto sinto-me bastante confortável com a situação actual.

MERCADO DE INVERNO E FUNDO DE JOGADORES

— O Benfica foi ao mercado de Inverno apesar de ter um bom plantel. Os adversários interrogam-se de onde vem o dinheiro para estas operações. Há segredo?

— Não há segredo, há gestão e um compromisso que resulta da última campanha eleitoral e que tenciono cumprir. Podíamos ter resultados financeiros completamente diferentes, mas teríamos vendido jogadores e comprometido o nosso desempenho desportivo. Os parceiros financeiros, em função do nosso histórico, acreditam em nós e tem sido parceiros fundamentais no desenvolvimento de uma estratégia pensada. Podíamos ter vendido alguns jogadores quando o campeonato acabou e nesse caso as nossas contas teriam sido completamente diferentes, mas teríamos vendido mal. Hoje, todos eles estão muito mais valorizados, alguns são mesmo dos mais acompanhados da Europa.

— A criação do Fundo de Jogadores foi uma espécie de ovo de Colombo que outros clubes irão inevitavelmente seguir?

— Nos últimos anos inovámos sempre no negócio do futebol e não só; depois os outros vêm atrás. O Fundo é apenas mais um caso. O que é que o Fundo nos permite? Ceder parte do passe de alguns jogadores, mantendo esses mesmos jogadores no Clube, ou seja realizamos o encaixe necessário sem ter de realizar a venda imediata. Mas além da inovação desta solução, queríamos que ela fosse transparente e por isso fizemos questão que o Fundo estivesse sediado em Portugal e debaixo da supervisão da CMVM, e não como outros fundos anteriores que foram sediados em paraísos fiscais.

— Qual foi a razão do Benfica ter investido no seu próprio Fundo?

— É o melhor sinal da confiança que podemos transmitir. Se quiser, é uma lógica de compromisso em relação a todos aqueles que decidiram investir nele. Também investem porque vêm que o Benfica acredita no Fundo que criou.

— Que sentido tiveram as alterações verificadas na estrutura da SAD?

— Não houve alterações, apenas alguns ajustamentos que tiveram a ver com a necessidade da Dr. Teresa Claudino se dedicar a novas áreas em que estamos a investir como sejam a Clínica e alguns projectos de responsabilidade social, daí a entrada do Dr. Rui Gomes da Silva para a Administração da SAD.

— Que política desportiva será seguida no final da época? Muitas vendas? Muitas compras? Ou, ao invés, aposta na continuidade?

— A prestação desportiva da equipa, a consequente valorização da generalidade dos jogadores e as inúmeras abordagens que têm sido feitas levam-me a pensar que será muito difícil manter o actual plantel tal como ele está. Porque assim penso e não sou ingénuo, estamos já a trabalhar para preparar o médio prazo e alguns dos jovens jogadores que estamos a assegurar nesta fase são, exactamente, para começar a preparar o futuro.

JORGE JESUS E O TÍTULO

— É previsível que o Benfica renove o contrato com Jorge Jesus ao longo de 2010?

— É previsível que Jorge Jesus seja o treinador do Benfica durante muitos anos e não o digo pelo lugar que hoje ocupamos no campeonato, mas sim pelo trabalho que todos os que lidam com ele dentro do Benfica lhe reconhecem. Portanto, Jesus tem todas as condições para fazer um percurso de longa duração à frente do Benfica.

— Acredita num Benfica campeão em 2009/10?

— Estou optimista em relação a isso, mas não é uma garantia, até porque como disse recentemente na inauguração de uma Casa do Benfica, ninguém pode garantir vitórias ou campeonatos, a não ser que se movimente em zonas escuras. Acho que fizemos tudo para construir uma equipa ganhadora, mas há caprichos da bola em campo que ninguém domina. Não posso garantir que vamos ser campeões, mas apenas que vamos fazer tudo para o conseguir.

— Como foi feito o caminho, desde a contratação de Jesus até este momento, numa época em que os adeptos têm aderido como há muito não se via no Benfica?

— Não há segredo. Contratámos um bom treinador - aquele que era desde há muito a minha escolha -, formámos um bom plantel e assegurámos uma boa estrutura profissional. E aqui destaco, sem esquecer o trabalho incansável de todos, a dedicação e paixão com que o Jorge Jesus abraçou este projecto. É verdadeiramente admirável o seu rigor, profissionalismo e entrega. Mas as pessoas têm de estar preparadas para uma ou outra situação menos feliz que a equipa possa viver. E aí todos vão ter de nos ajudar como têm constantemente ajudado a equipa este ano.

— Esta equipa já atingiu o seu máximo?

— Não é isso que o Jorge Jesus me transmite. Segundo ele, o nosso plantel ainda tem uma margem de progressão muito grande. Também é verdade que alguns ajustamentos que fizemos não têm a ver apenas com o curto prazo, mas antes com uma lógica de começar a preparar já a próxima época. Todos os jogadores que entraram agora, são jovens e com enorme talento mas que vão ter que passar por um período de adaptação e, como tal, vão começar a entrar na equipa, crescendo dentro do Benfica, para, quando for necessário, estarem prontos.

— Mas há cada vez menos portugueses na equipa...

— O tempo deles acabará por chegar. Temos jovens na nossa formação que no futuro acabarão por ter o seu lugar na equipa principal, mas primeiro é preciso prepará-los, é preciso construir uma equipa vencedora. Os primeiros a criticar o facto de termos poucos portugueses, são também os mais críticos quando os «jovens portugueses» falham, são os mais críticos quando alguma coisa falha. Por isso temos de assumir uma dinâmica vencedora e depois começar a integrar os jovens da nossa formação. Ninguém mais do que eu deseja ter muitos portugueses na nossa equipa, mas temos de dar um passo de cada vez.

— A Liga Europa (embora nas contas oficiosas do Benfica esteja «apenas» uma presença nos quartos-de-final...) é um sonho?

— Estou certo de que iremos o mais longe que nos for possível. A vitória não está entre os objectivos delineados no início da época. Nesse capítulo, o nosso principal objectivo é o campeonato, mas repito, à medida que formos ultrapassando eliminatórias, não iremos desperdiçar a oportunidade de chegar o mais longe que for possível!

— O Benfica, mesmo sem o recurso a verbas da Liga dos Campeões, apetrechou-se bem e mostra capacidade para mais. Se chegar à Champions, qual é o limite para o Benfica?

— Temos vindo a fazer um trabalho sério e que foi reconhecido pelos nossos sócios. Sabemos que a presença numa Liga dos Campeões pode valer 15 milhões de euros. Sei também que em 2006/2007 estivemos na Liga dos Campeões e tivemos 20 milhões de lucro. Portanto, é evidente que estar lá representa uma parcela financeira importante. Mesmo assim, afastados há dois anos dessa competição, conseguimos fazer o que poucos acreditariam ser possível. O que mais me estranha é que outros clubes que não passaram pelas dificuldades que nós passámos, que estiveram repetidamente na Liga dos Campeões e que vendem regularmente jogadores só consigam apresentar lucros mínimos ou mesmo prejuízos. Quando desportivamente voltarmos ao nosso melhor a verdade é que não sei onde poderemos chegar!

— Hermínio Loureiro não continua na Liga. A saída, no fim do mandato, é uma perda para o futebol português?
 
— Trata-se de uma pessoa que dedicou ao futebol português o melhor dos seus últimos anos e trabalhou de forma empenhada e com isenção. É evidente que se a sua decisão de não se recandidatar se mantiver será uma baixa importante para o futebol.

— Quem deverá suceder a Hermínio Loureiro? Essa é uma matéria que preocupa o Benfica?
— Acho que é uma matéria que deve preocupar aqueles que têm responsabilidades no futebol português. Mas na minha perspectiva, Hermínio Loureiro deveria repensar a sua posição. Não faz sentido abandonar a Liga neste momento. Iniciou um trabalho que deve completar. Qual é o problema de acumular a presidência da Liga com a presidência da câmara? Já se esqueceram que houve um presidente da Liga que acumulou durante muitos e muitos anos?

— Como estão as relações entre Benfica e Sporting?
— Estão bem, são relações normais entre duas instituições que se respeitam.

— Vê possibilidade de Benfica e Sporting assumirem posições comuns em matérias estruturais do futebol português?
— O Benfica, em tudo o que tiver a ver com melhorias a nível da transparência no futebol português, está disponível para assumir posições comuns com quem defenda os mesmos princípios. Se for com o Sporting será, sem qualquer problema, com o Sporting!

— Acredita que estamos a assistir ao início de uma mudança de ciclo, uma antecâmara da passagem da hegemonia desportiva do FC Porto para o Benfica?
— Preocupa-me pouco o que se passa ao lado, só me preocupa o que se passa nesta casa e, nesse capítulo, estou certo de que estamos a construir um projecto sustentado que nos vai permitir edificar um edifício desportivo de sucesso. Não faço as coisas em função do que os outros fazem, mas sim em função da minha convicção do que é ou não melhor para o Benfica.

— Como caracteriza as várias fases por que passou o futebol do Benfica desde que chegou ao clube, ainda no mandato de Manuel Vilarinho, como gestor do futebol?
— Foram fases muito diferentes. Houve um primeiro momento em que o único projecto que tínhamos era a de salvar o Clube, depois o de recuperar o seu património, depois começámos a desenvolver o futebol e, agora, finalmente, estamos a consolidar todo esse projecto. A tudo isto, e é bom não esquecer, conseguimos juntar a credibilização do Benfica enquanto instituição, algo que há nove anos atrás se tinha perdido!

— Se voltasse ao princípio desta caminhada no Benfica teria dito sim ao convite para entrar no clube?
— Creio que sim, talvez tivesse feito algumas coisas de forma diferente, mas isso é próprio da vida. Infelizmente, não temos uma segunda oportunidade para fazer diferente, por isso não vale a pena lamentar-me muito. É fácil tomar decisões conhecendo as suas implicações no futuro, mas como tal não é possível, não vale a pena perder muito tempo com isso. Em todo o caso, no conjunto de todos estes anos, era difícil fazer de forma diferente!

— Sente-se recompensado pelos alertas que fez contra a corrupção no futebol português?
— Sinto, simplesmente, que fiz aquilo que devia ser feito e que se não fosse isso talvez hoje continuássemos a viver na intolerável mentira de outros anos!

— O Benfica foi derrotado na justiça desportiva europeia?
— Não, a justiça desportiva é que foi derrotada em algumas instâncias do futebol europeu, o que é bastante diferente!

— Como viu a absolvição do FC Porto pelo TAS e a alteração do regulamento disciplinar da UEFA?
— Acho simplesmente que fugiram de um problema, mas independentemente de terem feito vista grossa, todos os que estiveram envolvidos no processo perceberam a dimensão do escândalo.

— O Apito Dourado fez justiça, foi longe demais ou deveria ter ido mais longe?
— Não quero voltar a um capítulo que já todos conhecem, mas é evidente que apesar de algumas decisões judiciais e de outras que alguns perspectivam e anunciam com fanfarronice …- lá saberão porquê e como o podem garantir - ninguém já tem dúvidas do que realmente aconteceu. O importante é garantir que situações como aquelas que foram conhecidas e denunciadas não voltem a repetir-se no futebol português.

SER OU NÃO SER REMUNERADO...— Quantas horas diárias dedica ao Benfica e quantas horas gasta com as suas empresas?
— Não sei contabilizar o tempo que estou ao serviço do Benfica, mas sei que dedico muito menos tempo do que devia ás minhas empresas. Mas não me queixo, tenho orgulho em ser Presidente do SL Benfica e tenho um compromisso com a palavra dada, que venho respeitando. Este lugar só pode ser assumido com espírito de missão e colocando os interesses do Benfica acima de tudo. Sou dos chamados «três grandes» o único Presidente não remunerado e isso é para mim motivo de orgulho. Mal do Benfica quando tiver de ter um Presidente remunerado...

— Na época passada falhou, por indicação médica, devido a problemas de tensão, muitos jogos do Benfica. Nesta temporada tem ido a todos. Melhorou ou deixou de dar ouvidos ao médico?
— Digamos que passei a ouvir menos os médicos…

— Tem feito milhões de quilómetros para estar junto dos benfiquistas. Sente-se recompensado, ou, a páginas tantas, o cansaço físico leva-o a pensar duas vezes sobre a sua capacidade de manter este ritmo?
— É evidente que o desgaste físico é muito grande, mas creio que os benfiquistas que diariamente se dedicam ao Clube e que também fazem muitos sacrifícios durante o ano merecem que o Presidente esteja disponível e próximo deles, nomeadamente através das suas Casas espalhadas pelo País e pelo Mundo fora. Tenho-o repetido em diversas ocasiões, as Casas representam verdadeiras «embaixadas» e merecem toda a nossa atenção. Para mim sempre foi claro que o Clube existe em função dos seus sócios e simpatizantes e é para eles que tenho virado a minha atenção.

— Falou dos sócios, e por declarações recentes, continua a creditar ser possível chegar aos 300 mil sócios?
— Sinceramente acredito que é possível. Ainda há pouco tempo atingimos os duzentos mil e em pouco mais de um mês e meio já fizemos mais cinco mil sócios. A equipa de futebol, que é no fundo a principal referência, tem sido «empurrada» pelos sócios e eu noto que há muita gente que quer formalizar a sua ligação ao Clube. Estou convencido que vamos atingir a meta proposta, mas não me peçam uma meta temporal.

CONSEQUÊNCIAS DA VITÓRIA ELEITORAL— O que significou para si a esmagadora vitória eleitoral de Julho de 2009?
— Foi um momento de avaliação e de responsabilização pelo passado e futuro do projecto, mas ao mesmo tempo foi um movimento popular impressionante. Quem viveu os dias anteriores à eleição, com as várias manobras jurídicas, com uma campanha dominada por insinuações sem fundamento, sabe do que falo. É evidente que fiquei sensibilizado com o apoio recebido e, principalmente, pela forma expressiva como foi manifestado.

— As candidaturas da oposição, a que foi às urnas e a que não passou do papel, tinham agendas secretas, objectivos escondidos, que partiam da base da tomada do poder no Benfica?
— Não sei o que tinham, mas sei o que seguramente não tinham: não tinham uma ideia ou um projecto para o Benfica e os sócios perceberam isso. Repito hoje, o que disse antes e durante a campanha: a minha porta está sempre aberta para receber quem tenha boas ideias. Ainda ninguém, desses senhores, bateu à minha porta!

— Se as eleições não tivessem sido antecipadas, o Benfica (consigo ou com outro...) estaria como está hoje?
— Seguramente a planificação teria sido atrasada e, em consequência, prejudicada a performance desportiva da equipa. A antecipação das eleições, por sinal até dada altura reclamada por alguns candidatos, permitiu planificar melhor, com outra serenidade. Mas permitiu mais, permitiu retomar negociações com parceiros importantes do Benfica e que o «barulho» que alguns criaram a determinado momento, obrigaram a parar. A antecipação eleitoral foi um acto legal e estatutário (como os tribunais vieram a demonstrar) em favor do Benfica e não a favor de A ou de B. E é bom que as pessoas entendam isso. E aquelas que estão de boa-fé assim o entendem.

— As suas propostas foram aprovadas na última AG do clube. Sente-se legitimado para promover algumas alterações de fundo no clube. Porquê e para quê?
— A proposta que mereceu aprovação na última Assembleia Geral relaciona-se com o plano de reestruturação financeira que nos permite defender melhor os interesses do universo Benfica, resolver alguns problemas que precisavam de ser solucionados e, ao mesmo tempo, responder a requisitos legais a que estamos vinculados. Mas tudo isto foi feito e minuciosamente explicado aos sócios, com o clube a manter a posição dominante em todas as empresas do universo Benfica. E isso foi sempre condição prioritária para mim. De outra maneira, não contem comigo. O Clube é dos sócios e assim continuará a ser enquanto eu estiver a liderar os seus destinos.

OLHAR DA JANELA DA HISTÓRIA — Quando se afastar do Benfica, que clube gostaria de deixar ao seu sucessor?
— Gostaria de deixar o Clube que eu gostava de ter encontrado, mas creio que o meu sucessor não vai ter motivos de queixa da realidade que vai encontrar…

— Até que patamar pode chegar o Benfica?
— O Benfica chegará até onde os seus sócios quiserem. O Benfica é muito mais do que um clube português, é um clube do Mundo, admirado e respeitado por todos. Se continuarmos a fazer o nosso trabalho da maneira certa vamos crescer até onde nunca imaginámos que poderíamos chegar. Portugal precisa de um Benfica forte. Dito de outra forma, o País tem muito a ganhar com a vitalidade e sucesso do Sport Lisboa e Benfica.

— Por qual destas expressões gostaria de ficar conhecido no universo benfiquista: «Presidente do povo»; «Presidente da mudança»; «Presidente das vitórias»; «Presidente da renovação»; «Presidente da modernidade»?
— Apenas como alguém que veio do povo e que se dedicou de alma e coração ao Sport Lisboa e Benfica, para mudar, renovar e inovar e que tudo tem feito e continuará a fazer para engrandecer o nome e a história deste clube.

Entrevistas (IV)


Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

Entrevista de Luís Filipe Vieira



Por JOSÉ MANUEL DELGADO

LUÍS FILIPE VIEIRA, nesta entrevista que concedeu a A BOLA mostrou-se, à entrada de um ano importante para a vida do Benfica, não só porque foi campeão de Inverno e tem reais possibilidades de chegar ao título mas também porque em Outubro haverá eleições, muito confiante no projecto que já lidera há vários anos. Vieira passa em revista a vida económico/financeira do clube, as linhas mestras da estratégia encarnada, a Benfica TV e os direitos televisivos, a entrada em cena de Rui Costa, os casos de arbitragem, os Apitos, as renovações (já que não se vislumbram contratações em Janeiro) no futebol a mudança que houve nas Modalidades e deixa sempre a ideia de que, cada vez que conhece melhor o Benfica, mais admira os benfiquistas e melhor se sente junto das bases. Quanto à recandidatura, mantém tabu. Mas sempre adianta que «o Benfica é um projecto que nunca se completa», ou seja, nas entrelinhas lê-se que não dá por terminada a sua missão no clube. E tem uma resposta curiosíssima quando se lhe pergunta se tem a vida organizada em função do Benfica: «Diria, de forma contrária, que tenho a minha vida desorganizada de forma a poder passar muitas horas por dia no Benfica. Mas não digo isto com qualquer ponta de insatisfação, pelo contrário. Gosto do que faço, gosto das horas que dedico ao Benfica e gosto da forma como sinto, todos os dias, a equipa com quem trabalho motivada a continuar.»

(Pág. 3)


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LUÍS FILIPE VIEIRA «O Benfica é um projecto que nunca se completa» 

No início de 2009, que muitos vêem como 'o ano de todos os perigos' devido à crise financeira mundial, o presidente do Benfica mostra segurança nas respostas, orgulho nos projectos já concretizados e confiança naquilo que ainda está a meio caminho. E quer ser campeão nacional, «para poder dar essa satisfação aos benfiquistas»

Entrevista de JOSÉ MANUEL DELGADO

O ano de 2008 acaba com o Benfica em primeiro na Liga, algo que não acontecia há 15 anos. No entanto, não foram tempos nada fáceis, especialmente a partir do momento em que Camacho saiu...

— Cada tempo tem as suas dificuldades e 2008 não escapou à regra, mas não foram maiores que outras que enfrentámos no passado - em que tivemos de recuperar o Benfica, assumir responsabilidades alheias e, ao mesmo tempo, combater a falta de verdade desportiva que se vivia no futebol português - apenas foram diferentes. Foi um ano em que desportivamente falhámos, e isso deixa sempre marcas, mas o Benfica começa, agora, a poder, finalmente, concentrar-se apenas na vertente desportiva, e isso vai reflectir-se a curto prazo. Acabar o ano em primeiro lugar é importante, é sinal de que estamos a trabalhar melhor do que no passado, mas, como outros já disseram antes de mim, é algo simbólico e aquilo que realmente queremos é ganhar o campeonato. É em Maio que temos de chegar em primeiro!

— Os objectivos empresariais já foram alcançados, faltam os objectivos desportivos?

— O fim tem de ser sempre o de ganhar no campo, mas toda a gente sabe de onde partimos. Hoje, o Benfica é reconhecido como uma organização que, do ponto de vista empresarial e financeiro, conseguiu - com uma gestão equilibrada - alcançar as metas propostas, mas de facto, ainda não conseguimos alcançar aquilo que ambicionamos do ponto de vista desportivo. A verdade é que sempre disse que a começar por algum lado teria de ser pela vertente financeira, mas o objectivo final tem de ser o êxito desportivo. Toda a gente compreende que no estado em que encontramos o Benfica, a nossa primeira prioridade foi estabilizá-lo e retirá-lo do coma em que se encontrava. Agora sim, repito, estamos em condições de nos começar a concentrar no capítulo desportivo. Daí também o investimento que fizemos este ano!

— Teme que o esforço financeiro feito pelo Benfica em 2008/09 na equipa principal possa ser boicotado por forças externas?

— A única coisa que devemos temer é pela sucessão de erros de arbitragem que adulteram a verdade desportiva, nem sempre com a respectiva responsabilização dos seus intervenientes. O esforço que fizemos para reforçar a equipa foi planeado e pensado em função do lugar que queremos devolver ao Benfica. É um investimento que todos os sócios e adeptos merecem. Mas é evidente que nenhum esforço fica a salvo de situações como as que se viveram no jogo contra o Nacional, e nem sequer foi caso único, nem isolado. Foi apenas o último de muitos erros que já nos prejudicaram ao longo desta época. Fomos os últimos a falar de arbitragem, quisemos ficar de fora, dar o benefício da dúvida, mas pelos vistos esta atitude foi penalizadora para nós.

CARLOS XISTRA, OLEGÁRIO, LUCÍLIO...

— Em que outros casos encontrou razões de queixa?

— Toda a gente se lembra da actuação de Carlos Xistra em Guimarães, dos dois jogos de Olegário Benquerença contra o Leixões. São dois nomes que impõem ponderação séria em futuras nomeações para jogos do Benfica, sem esquecer - porque é impossível pelo que foi a sua actuação no Estádio do Bessa o ano passado - Lucílio Baptista. Resumindo, eu não diria que não são forças externas, pelo contrário, são bem conhecidas!

— Pedro Henriques reafirmou que manteria a decisão...

— Sinceramente foi aquilo que mais me impressionou. Nunca vi um árbitro dar tantas entrevistas para justificar uma decisão, quase diria que se tentou convencer a ele próprio de que tinha razão.Para mim, tudo aquilo que se passou no jogo e depois dele foi uma surpresa desagradável em face da opinião que tinha de Pedro Henriques. No entanto, espero que aquilo que sucedeu no jogo com o Nacional tenha sido um acidente de percurso. Quero manter a minha confiança na Comissão de Arbitragem presidida por Vítor Pereira.

— Pretende manter, apesar de erros de arbitragem, como com o Nacional, uma cultura de exigência e responsabilização dos jogadores do Benfica?

— Os erros de arbitragem devem ser discutidos e tratados no local próprio. A cultura de exigência que devemos reclamar dos nossos profissionais é independente de tudo o resto e não vale apenas para os jogadores da nossa equipa profissional de futebol, nem é apenas uma reclamação de agora, é de sempre. A exigência é uma regra neste clube para todo o universo de atletas e funcionários. É um enorme esforço, aquele que se nos pede, um esforço em que ninguém é dispensável, porque o ciclo económico que está para chegar vai obrigar-nos a mobilizar todas a nossas capacidades. Aquilo que eu peço hoje foi o que sempre pedi desde que cheguei ao Benfica: trabalho sem limites, dedicação enorme!

— É possível que o Benfica mantenha Suazo, por exemplo, no plantel de 2009/10?

— Infelizmente, a decisão não está apenas nas nossas mãos. O que temos é um contrato de empréstimo sem opção de compra, por exigência, então, do Inter. Mesmo que haja vontade da nossa parte, não temos autonomia em relação a essa decisão. É um jogador que tem as características profissionais e humanas que este clube procura, vamos aguardar e ver os desenvolvimentos, na certeza de que se nos for dada a oportunidade vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o manter cá. Mas tenho a convicção de que não vai ser fácil.

— A continuidade de Reyes depende fundamentalmente do Benfica?

— A situação em relação ao Reyes é diferente. Já é público, o Rui Costa já o assumiu. A decisão, neste caso, é nossa. Há uma opção de compra assumida, portanto, neste caso a situação é completamente diferente da anterior, temos a capacidade de manter o atleta do nosso lado.

— O Apito Dourado e o Apito Final trouxeram algo de novo ao futebol português?

— Trouxeram, pelo menos, a denúncia de que o futebol português viveu à sombra de uma mentira durante muitos anos. Mas trouxeram mais, a certeza de que ainda há pessoas íntegras, capazes e preocupadas com a verdade, e isso é algo que devemos saudar. A nível da justiça desportiva já houve condenações. A nível da justiça comum, os processos continuam. São processos complexos, demorados, mas já percebemos todos que durante anos houve esquemas que adulteraram a verdade desportiva. É tão claro, hoje, o que se passou ao longo de anos! O mais absurdo de tudo, e que é o melhor indicador de tudo o que disse até aqui, é que a defesa de algumas pessoas está preocupada apenas na não admissão da prova em vez de, como devia, estar fundamentada na contestação da prova. A prova existe, ninguém a contesta, ninguém recusa que tenha acontecido, nem como aconteceu. Estão unicamente preocupados em impedir que possa ser usada. Já todos percebemos o que aconteceu e isso é algo que já ninguém pode apagar!

— O Benfica tentou fazer valer os direitos que entendia assistirem-lhe junto da UEFA, a propósito da condenação por tentativa de corrupção de Pinto da Costa, mas não viu o assunto resolvido em 2008/09. O seu clube vai continuar empenhado nessa luta?

— Esse sempre foi um problema da UEFA a que o Benfica respondeu quando foi chamado. Quem deve continuar empenhado na luta pela verdade desportiva deve ser a UEFA e a própria Federação Portuguesa de Futebol. Aliás, devo lembrar que os órgãos da FPF ratificaram as decisões da Comissão Disciplinar. O futebol defende-se agindo contra quem viola as regras e põe em causa a verdade desportiva. O que nos moveu foi uma questão de princípio e por isso, independentemente de sermos campeões este ano, vamo-nos manter vigilantes!

— Hoje, a chamada oposição interna, sente-se menos do que quando pegou no clube?

— Não sei, nunca tive como uma das minhas preocupações diárias medir o grau de oposição com que esta direcção contava. As críticas não me preocupam, desde que sejam construtivas e não façam mal ao clube, desde que não sejam oposição ao próprio clube. A minha preocupação está focada para outras coisas bem mais importantes. Hoje parece que tudo foi fácil, que o clube viveu sempre como vive hoje. Muitos dos que hoje reclamam, esqueceram-se do que foi a herança que tivemos de assumir e do que isso significou em termos estruturais. O Benfica correu o risco de desaparecer. Muitos daqueles que no passado só se aproveitaram do Benfica, que se conformaram com a gestão de Vale e Azevedo, que nunca se atreveram a questionar o caminho que estava a ser seguido pelo clube, são aqueles que hoje se limitam a criticar. Criticam com um único intuito: fazer regressar o clube ao tempo da anarquia e da instabilidade. Não têm uma ideia, um projecto, apenas uma vontade: voltar a ter protagonismo.

AS RELAÇÕES COM O 'NOVO' RUI COSTA

— A entrada em cena de Rui Costa como director desportivo e administrador da SAD tem correspondido às expectativas que nele depositava?

— Sem dúvida. O Rui faz parte do passado e do presente deste clube e representa, ao mesmo tempo, o seu futuro. Conheço-lhe, como poucos, as suas qualidades. Sei da competência, do querer e do empenho que põe em tudo o que faz. O Rui Costa é a nossa melhor garantia de um projecto desportivo sustentado e integrado.

— Como são as suas relações diárias com Rui Costa, que informações partilham, que impressões trocam?

— Como devem ser. Falamos de tudo, partilhamos tudo, do futebol e da administração, mas ele sabe que tem autonomia. E essa autonomia vem da confiança que todos temos no seu trabalho. Foi por isso que esperei por ele, e o trabalho realizado até agora é a melhor garantia de que há um projecto!

— Quique tem bom ambiente entre os adeptos. Isso ajuda a manter em alta o apoio à equipa?

— Os adeptos perceberam o que está em causa. Têm sido insuperáveis no apoio que têm dado à equipa. Tenho a certeza de que esse apoio se vai manter, porque é uma parte fundamental deste projecto. Sem o apoio dos adeptos não faz sentido todo este trabalho!

— São de esperar reforços no Benfica durante em Janeiro?

— Não, isso não está nas nossas cogitações. A SAD entende que o plantel é suficiente para que os objectivos sejam alcançados.


As recomendações dos médicos 

O presidente do Benfica garante que não lhe «falta energia para as batalhas de 2009» ironizando que «apenas aquilo que me falta é autorização médica, porque ando com a tensão muito alta, para assistir aos jogos do Benfica, ao vivo ou na TV.» Assim se explica a ausência de Luís Filipe Vieira (que há um ano esteve internado com uma pneumonia, mal completamente debelada) dos últimos jogos dos encarnados. Vieira fez questão de elucidar que «esta situação deverá manter-se ainda durante mais algum tempo.»

No entanto, o líder encarnado deixou a pedagogia de lado e não escondeu o bichinho que o ataca cada vez que o Benfica actua, abrindo outra possibilidade para ver as partidas do actual comandante da Liga: «Bom, não vou aos jogos, pelo menos enquanto não me decidir a ignorar as recomendações médicas...!»

«Não nos queixamos de falta de militância» 

Luís Filipe Vieira tem-se desdobrado, dentro e fora das fronteiras pátrias, em encontros com a nação encarnada. No início do primeiro mandato, em 2003, Vieira era tímido nessas manifestações. Hoje, não esconde o prazer enorme que sente no contacto directo com as bases.

«Este ano» diz o presidente encarnado, «os sócios e simpatizantes têm sido de uma dedicação total, têm apoiado a equipa, têm sabido estar presentes nos momentos bons, mas principalmente nos momentos menos bons, e isso temos de o saber destacar.» Feito o elogio - aliás confirmado pelas estatísticas de assistências aos jogos da Liga de Clubes, onde a média caseira é de 43 mil espectadores - Luís Filipe Vieira fez questão de afirmar que, «o Benfica, ao contrário de outros clubes, não se queixa de falta de militância!»

(Pág.4 e 5)


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«Rui Costa faz parte do passado e do presente e representa o futuro»

— Tem feito da verdade desportiva um dos pontos fortes do seu discurso. Sente que esta época há sinais de mudança positiva, ou, na prática, pouco mudou?

— Quero acreditar que algo mudou, mas a prática leva-me a ser prudente nesse capítulo. Espero que os agentes desportivos não percam a oportunidade que foi dada pela justiça desportiva para cortar com o passado. Seria demasiado grave para todos se assim não fosse!

O BENFICA E A CRISE FINANCEIRA MUNDIAL

— O actual quadro competitivo no futebol profissional está à altura das expectativas do Benfica?

— É público que o Benfica está interessado em melhorá-lo, mas como fez até aqui, as propostas serão sempre apresentadas dentro da Liga, aos seus órgãos e dirigentes. Em todo o caso posso adiantar que o Benfica está disponível a ajudar a Liga a fazer investimentos no capítulo da arbitragem, seja em meios tecnológicos, seja na profissionalização. Não temos preferência em relação a nenhum deles, estamos disponíveis para ajudar desde que daí resultem melhorias significativas para a arbitragem portuguesa.

— Há condições, no seio da Liga, de promover alterações que não só moralizem o futebol, mas também ajudem a criar riqueza, evitando a praga dos salários em atraso que aflige muitos clubes ditos profissionais?

— Creio que neste momento há condições e vontade de trabalhar no sentido de moralizar o futebol e obter mais receitas. É evidente que - a nível económico - o que aí vem vai obrigar a Liga a redobrar esforços, mas com uma estratégia concertada e as opções certas penso ser possível superar as dificuldades que se adivinham. Do Benfica podem esperar total cooperação. Mas denunciaremos sempre os jogos de poder que se instalam em algumas Assembleias Gerais, como aqueles que se viveram quando recenetemente se discitiam propostas para alteração do Regulamento Desportivo.

— A crise financeira mundial afectou muitas instituições bancárias. Esse facto teve reflexo no dia-a-dia do Benfica?

— Não, pelo menos para já. Mas o Benfica não é uma 'ilha' e é natural que as restrições ao crédito bancário que estão a afectar a economia também se façam sentir neste sector. Antecipando esse tipo de problemas iniciámos já uma diversificação das fontes de financiamento, em particular com a emissão de Papel Comercial que terá lugar durante Janeiro.

SEM DECISÃO OFICIAL DE RECANDIDATURA

— Qual foi a evolução da situação financeira do Benfica ao longo de 2008?

— Este é um ano de forte investimento e por isso não são de esperar resultados financeiros em linha com as últimas épocas.

Comparativamente a 2007/2008, as contas serão afectadas por dois factores. O primeiro e o mais relevante pelo seu impacto, o facto do Benfica não ter alienado o passe de qualquer um dos seus jogadores mais importantes e teve oportunidade para o fazer. O segundo, de menor expressão, a saída prematura das competições europeias. Mas neste caso, acredito que compensaremos o diferencial com uma melhor performance na Liga.

— 2009 é ano de eleições no Benfica. Vai recandidatar-se?

— Ainda faltam alguns meses até lá e muito trabalho pela frente. Não quero dizer ainda nada a esse respeito, devemos viver um dia de cada vez. No tempo certo farei a minha avaliação e tomarei uma decisão, sendo certo que a minha família - a grande prejudicada durante todos estes anos - terá uma palavra importante a dizer.

— É um cenário plausível que a questão dos direitos televisivos venha a influenciar, até com a chegada de outros candidatos, as eleições?

— Não creio, isso seria admitir que há benfiquistas que estariam interessados em candidatar-se, não porque tivessem um projecto para o Benfica, mas apenas para serem 'testas de ferro' de determinados grupos, e isso eu recuso-me a acreditar que seja possível. É demasiado mesquinho!

— O que está, em seu entender, ainda por fazer no Benfica, depois do saneamento financeiro, do novo Estádio, do Centro de Estágio e Treinos do Seixal e da Benfica TV?

— O Benfica é um projecto que nunca se completa, haverá sempre novas metas por cumprir. O que fizemos até aqui foi um trabalho de recuperação do Clube, a nível das suas infra-estruturas, a nível da sua credibilidade, a nível da sua organização. Isso foi feito, agora temos de nos preocupar em voltar a implementar uma dinâmica vencedora no domínio desportivo.

— O Benfica continua a representar uma substancial fatia do mercado nacional. Até onde pode crescer, o que está a ser feito nesse âmbito?

— Não queremos ser como os outros, queremos continuar a crescer e há apenas uma estratégia: valorizar as pessoas, porque verdadeiramente são elas o motor do Benfica. Não são as acções em bolsa, a SAD, ou os activos, o importante são os benfiquistas, são a única coisa que verdadeiramente é insubstituível! Por isso é que eles estão sempre no centro das nossas preocupações! Vamos continuar a inovar a nível de novos produtos que possam cativar mais sócios, que façam as pessoas aproximar-se do Clube. O Kit de sócio, os parceiros associados, todas as campanhas promocionais, e todo um conjunto de empresas que vão desde a área da saúde, às telecomunicações e viagens. É por aqui que passa o Benfica.

— Como vai ser a expansão e fundamentalmente a solidificação da marca Benfica nos países de expressão portuguesa?

— É um mercado em que devemos apostar fortemente. Estamos ligados a eles pela língua, pela cultura, pelos afectos mas também pelos muitos jogadores desses países que ajudaram a construir a memória do Benfica. Pessoalmente, acredito nas virtudes das relações de proximidade, nos contactos directos, no intercâmbio de experiências. Aliás, a digressão que fizemos no ano passado, é a melhor prova do que acabo de dizer. Temos de voltar com regularidade a esses países, porque eles também fazem parte da nossa história.

— Gosta de ser presidente do Benfica, é-lhe confortável andar de Casa em Casa, junto das bases?

— A coisa que mais me agrada é o contacto directo com os benfiquistas. Sempre procurei ser um presidente próximo de todos, porque sei que a verdadeira força no clube está nas bases, está nas pessoas. Quando aqui cheguei assumi o desafio numa perspectiva de missão, mas nunca irei reclamar que salvei o Benfica, nunca o ouvirão da minha boca. Fomos todos que conseguimos trazer o Clube até aqui, servi apenas como um farol que conseguiu alertar e congregar os sócios à volta Clube. Mas também é verdade - como tenho repetido nas Casas que visito - que os sócios - que conseguiram fazer recuperar o Benfica - têm de manter o mesmo nível participação na vida do Clube, que tiveram nos momentos mais críticos. Quaisquer que sejam as decisões que importa tomar, elas devem ser partilhadas e sufragadas pelo maior número de sócios possível em cada momento, porque só assim se pode reforçar o Clube e ambicionar o seu crescimento. O Benfica será tanto maior quanto maior for a participação dos seus associados na partilha das opções que devem ser tomadas.

DA VIDA PESSOAL, AO 'DESASTRE' DE ATENAS

— Tem a vida organizada de forma a continuar a dedicar várias horas diárias ao clube?

— Diria de forma contrária, tenho a minha vida desorganizada de forma a poder passar muitas horas por dia no Benfica. Mas não digo isto com qualquer ponta de insatisfação, pelo contrário. Gosto do que faço, das horas que dedico ao Benfica e da forma como sinto, todos os dias, a equipa com quem trabalho motivada a continuar. Nos últimos anos temos conseguido antecipar problemas e desenhar as respectivas soluções. É esta mentalidade que nos vai permitir continuar a crescer.

— Sinceramente, acredita que o Benfica, que tem sido tão irregular exibicionalmente, tem condições para chegar ao título nacional?

— Creio que temos todas as condições para lutar pelo título.

— O que disse a jogadores e técnicos depois do «desastre» de Atenas?

— Que quando acreditamos no trabalho que está a ser desenvolvido, temos de manter o rumo, independentemente de alguns acidentes que possam acontecer.
Que quando acreditamos no trabalho que está a ser desenvolvido devemos levantar a cabeça e manter o rumo.

— Que votos gostaria de formular para 2009?

— Para o ano que agora começa gostaria de poder oferecer a todos os benfiquistas o título de campeão nacional. Sei que a equipa está empenhada de alma e coração nesse grande objectivo. Espero que nos deixem ganhar a Liga dentro de campo! Fora de campo, nunca, como outros já fizeram


«Defenderei intransigentemente o justo valor dos nossos jogos » 

A Benfica TV é, por si só, um terramoto no meio audiovisual do desporto em Portugal. Uma
aposta de que Vieira se orgulha

— Pode falar-se da Benfica TV como uma revolução não só nos clubes mas também no audiovisual?

— Sem dúvida. Por um lado a Benfica TV é um projecto estruturante para o clube, um instrumento que vai mudar a maneira como comunicamos com sócios e adeptos. Mas se é verdade que seguimos o caminho já percorrido por alguns clubes europeus, mesmo assim conseguimos inovar: o canal vai emitir 24 horas, sem necessidade de subscrição e numa lógica de abertura a toda a vida do clube e não apenas ao futebol. Por outro lado, a nível do audiovisual vai permitir-nos defender melhor o valor dos nossos direitos televisivos.

— Que esperanças deposita realmente no desenvolvimento do canal?

— Todas. De dia para dia sente-se que o canal está a crescer. Como qualquer projecto desta dimensão, há sempre aspectos a corrigir e a melhorar na sua fase de arranque, mas sinto que a Benfica TV é uma realidade com um grande peso e cuja existência, repito, vai ser fundamental para a defesa dos nossos direitos.

— A tendência, com o advento da Benfica TV, será de não renovar com a Olivedesportos e a partir de 2013 ter todos os jogos do clube no canal «da casa»?

— A tendência será a de defender de forma intransigente os direitos do Benfica e o justo valor dos nossos jogos. Toda a gente sabe em que condições o presente contrato foi assinado, em Maio de 2003 e o valor que recebemos. Mas toda a gente sabe a diferença a nível de audiências que os nossos jogos têm em relação aos demais. Não se podem tratar de forma igual realidades diferentes. Isso tem de acabar. Há várias maneiras de o fazer, veremos na altura própria o caminho que vamos seguir!

«Modalidades? Gestão rigorosa, máximo empenho» 

A mudança nas Modalidades do Benfica é vista por Luís Filipe Vieira como tendo origem em «decisões pouco rigorosas, mas convenientes em função do protagonismo mediático que algumas pessoas podem obter, mas que do ponto de vista da gestão se revelam profundamente erradas.»

Quanto às opções a tomar, Vieira diz que o Benfica tinha «dois caminhos, manter o rumo que levava e possivelmente, hoje, já teria sido obrigado a fechar algumas das Modalidades ou alterar o rumo e conseguir combinar uma gestão orçamental rigorosa com a exigência de máximo desempenho desportivo. Foi isso que foi feito e é para aí que devemos apontar.»

Para o presidente dos encarnados «temos sempre uma estranha tendência para discutir mais o curto prazo do que o médio e o longo prazo», esclarecendo que «quando o problema se levantou, a primeira coisa que fiz foi reunir com todos os treinadores e seccionistas das Modalidades, pedi-lhes apoio para que trabalhássemos em conjunto. Devo dizer que foram inexcedíveis.»

Acabou por ser uma das figuras emblemáticas do Benfica, Carlos Lisboa a assumir responsabilidades na área. Luís Filipe Vieira garante que teve, «não só do Director-Geral, Carlos Lisboa, mas de todos os seccionistas e treinadores a compreensão e apoio necessários. Todos entendem o problema e as suas implicações no futuro e todos partilham da solução.»

Claques, gente boa, gente má 

O Benfica em nada alterará a política que tem seguido com as claques. «Faremos como até aqui», diz o presidente, «sabendo que o seu apoio é importante para a equipa e da grande vontade que tem em transmitir esse apoio. Mas enquanto não preenchermos requisitos legais que são exigidos, não os podemos reconhecer enquanto tal!»

Há poucas semanas, membros dos No Name Boys foram presos por actividades que eram tudo menos futebol, como A BOLA titulou. Luís Filipe Vieira, a propósito dessse caso, afirmou que o seu «único desconforto» foi «ter assistido a uma tentativa de confundir o futebol do Benfica com práticas que nada têm a ver com futebol. Há gente boa e má em todo o lado e é bom que as pessoas percebam isso!»

Também houve, em 2008, alguns momentos tensos em Assembleias Gerais, imputados às franjas mais radicais dos No Name Boys.

Vieira desdramatiza, afirmando que, para ele, «os únicos momentos complicados são quando o Benfica não ganha ou quando os golos são mal invalidados, não são as Assembleias Gerais com os sócios.»

(Pág. 6 e 7)